quarta-feira, 18 de abril de 2012

Odisseia de Uma Gente III–Huila

             Povoação da Huila          

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Cascata da Huila
Das mentiras e omissões à verdade
Topografia – Pelo esboço cartográfico já referido, podemos observar que a “Cordilheira Marginal”, no seu prolongamento para sul, caprichosamente, vai delimitar o vale do Lupolo numa configuração semiovalar semelhante ao da colina do Lubango. A saber: a noroeste, a cascata da Huíla; a oeste, a cascata da “Mutxa” que abastece a Missão Católica da Huíla; e, entre estas, no sopé da serra, a ombala da Huíla e suas verdes mulembas; a sul, a simétrica serra da Catala. A norte, este e sudoeste, a fechar a configuração ovalar, as txitetas – mata arbustiva espinhosa (unha-de-gato), espécies frutíferas selvagens e a milagrosa mutunda, entremeadas por maumbô (aldeias), (eumbô no singular) da comunidade mundonga.

Toponímia – segundo opiniões de pretensiosos linguistas, o nome Huíla deriva de Auyla, Hila ou Hohila (Ovila seria a forma correcta). Destes, o que melhor se adapta, é Ovila (pássaros). Todavia, “etimologicamente”, a transposição para o português de qualquer destes nomes está errada. A forma correcta seria Uíla – sem agá; e o nome dos seus naturais, muílas: simplificação de mumuíla (vamuíla no plural), denominação orgulhosamente utilizada entre estes.
A propósito – Salvo provas convincentes discordantes – o nome Huíla (vou respeitar o excrescente H) correspondia somente ao lugar da ombala e da cascata. O vale assim como o rio que o banha, chamava-se Lupolô (rosto), nomes que os povos vizinhos sempre respeitaram. Foi por força da velha ombala e próximo desta a fundação da fortaleza, em 1845, pelo agitador e oportunista major Garcia, que o nome se popularizou a todo o planalto e adoptado para designação do distrito da Huíla instituído em 1901.

Povoamento por raça branca – Neste caso, para bom entendimento, vou alternar com certos pormenores porque, sem estes, a história ficaria deficiente. Nos princípios do século XVIII, a região foi sendo conhecida por viandantes, portugueses e estrangeiros, procedentes de Benguela, com passagem obrigatória pela Huíla ou por Caconda – conforme o destino destes – para pagamento de tributo aos soberanos: em fazendas, aguardente, pólvora e bugigangas. Em troca era-lhes concedida liberdade mercantil e garantia de relativa segurança. O objectivo dos aventureiros portugueses traduzia-se no negócio de permuta de artigos atrás referidos, por marfim, cera e – o mais lucrativo – escravos, a embarcar em Benguela e na Angra dos Negros baptizada, em 1785, com o nome de Moçâmedes. Os aventureiros estrangeiros, sob a capa de negociantes, as suas missões, ao serviço de algumas nações europeias, eram o reconhecimento do terreno e espionagem do potencial económico do que veio a constituir, quase dois séculos depois, o leste e sul de Angola.
Atenção: a abolição da escravatura, por decreto, nunca passou do papel. Mudou apenas de plumagem!

Alba NovaEm 1768, o visionário Sousa Coutinho, então governador-geral de Angola, manda fundar, na Huíla, a povoação de Alba Nova onde foram colocados alguns brancos. Quantos? … Sabe-se apenas que, mesmo com a “remessa de 31 degredados da Metrópole para a Huíla”, em meados de 1849, a presença de portugueses na utópica Alba Nova estava reduzida a um sargento e sete colonos abandonados.
Toda a costa, de Benguela à foz do rio Cunene, de que Portugal, sem nenhuma presença portuguesa ali, se arvorava de dono, estava sendo cobiçada por certas nações europeias. Vulnerável à iminência de uma ocupação, em 1840, foi construída a fortaleza de Moçâmedes com uma guarnição de 50 soldados. Em 1845, além dos militares “contava com mais 70 pessoas entregues ao comércio do interior e apenas um à pescaria”. Em 1849 “foi criado o governo de Moçâmedes, com a mesma categoria do de Benguela”.
No século XVIII, “nas nações americanas que foram adquirindo independência”, desenvolveu-se um movimento xenófobo, conhecido por doutrina do “nativismo”, que perseguia os que não fossem naturais do continente. Tal despautério contagiou também o Brasil. Ali, onde o antagonismo entre naturais e portugueses era frequente, este movimento manifestou-se contra portugueses trasmontanos, culminando com “sangrentas perseguições, em Junho de 1848, na cidade do Recife”, Província de Pernambuco.
Na sequência destes factos, a pedido dos perseguidos, por deliberação do ministro da Marinha e Ultramar, estes seriam transferidos para Moçâmedes, com transporte gratuito e promessa de ajudas. Em Maio de 1849 um grupo e 170 indivíduos, em duas barcas, zarpa do Recife, chegando a Moçâmedes nos princípios de Agosto. Em 1850, também em duas barcas, com o mesmo destino, embarcaram 144. E, em 1851, mais cem indivíduos. O custo de transporte e outras despesas foram suportados por meio de subscrição entre portugueses radicados no Brasil. A ser verdade, depreende-se que o ministro não cumpriu as suas promessas.
Estes desamparados, fugidos às agrestes serranias de Trás-os-Montes e por breve tempo nos verdejantes campos de Pernambuco, foi grande o seu desencanto ao desembarcarem em Moçâmedes: à sua frente deserto, só deserto; para trás mar, só mar. Com a entrada destes 414 “bratugueses” aumenta a população de Moçâmedes, elevada à categoria de vila em 26 de Março de 1855. Do primeiro grupo de “colonos” provenientes do Brasil, ainda em 1849, parte destes é enviada para a Huíla. Em cumprimento às promessas de ajuda foi-lhes distribuído: leiras de terra, uma mancheia de grãos de milho, uns ramos de “cinco bicos” (uma das três espécies de batata-doce), algumas enxadas e machados rudimentares. Sem vislumbres promissores acrescido da insegurança devida a uma sublevação dos seus vizinhos nativos, vítimas de toda a sorte de fraudes, um ano após a sua chegada a maior parte abandona a região.
Em meados dos anos 50 os poucos brancos que se mantiveram na Huíla “sem nenhum amor à propriedade (…) só se ocupavam de intrigas e ninharias”. Talvez por isso e sucessivos fracassos, em Março de 1857 foi criado o concelho da Huíla. Que nada adiantou. Por incompetência dos chefes e seus superiores, a sorte da Huíla estava traçada: condenada à estagnação.
Os demais “bratugueses” que aportaram em Moçâmedes, não vendo ali quaisquer perspectivas económicas, muitos deles demandaram para norte. Num sobe e desce através dos montes do Deserto Namibe, foram fixar-se no planalto do Bumbo e Capangombe, 500m de altitude, com pluviosidade suficiente para a cultura de espécies pouco exigentes. À força braçal entregaram-se à plantação de algodão, cana-doce e outras culturas para consumo próprio. Os que permaneceram em Moçâmedes dedicaram-se à pesca, hortas nos pequenos oásis nas margens dos rios Bero e Giraúl. Com o passar dos anos, ao comércio e expansão piscatória.

Vista Alegre – Em 1857, ano da elevação da Huíla a concelho, encontravam-se ali 29 brancos. A 9 de Julho desse ano, acompanhados pelo governador interino de Moçâmedes, chega à Huíla um grupo de colonos: 28 alemães e 5 rapazes da Casa Pia, estes, com idades compreendidas entre os 13 e 18 anos. Nesse mesmo ano a colónia foi reforçada por um insignificante grupo, entre eles 4 alemães. Ao novo povoado, na presença do soba, foi dado o nome de Vista Alegre, com promessas de instalação dum moinho, fábrica de tijolo e telha e duma coudelaria!? Nos finais 1858 dos alemães restava apenas um de apelido Quaresma. Quanto aos colonos portugueses, abandonados à sua sorte, vegetavam pelas matas circundantes a colher frutos silvestres e a caçar coelhos e perdizes. O único bem de que dispunham com abundância era água corrente e cristalina.
Colónia Militar Agrícola – O ministro Sá da Bandeira, conhecedor das malogradas tentativas de colonização da Huíla, manda organizar uma colónia militar formada por gente capaz nos diversos misteres e correspondentes ferramentas, um farmacêutico e pároco. Esta colónia (de salvação!) composta de 136 pessoas chega a Moçâmedes, na nau “Vasco da Gama”, a 5 de Dezembro de 1858. Foi tal a esperança posta nesta “excepcional” colónia que, entusiasmados, nela se alistaram 27 habitantes de Moçâmedes. A 17 de Fevereiro de 1859 – em plena estação chuvosa – partem para a Huíla 30 soldados, atingindo o seu destino em 10 dias. No dia 21 de Abril, ainda sob os efeitos da chuva, a pé e alguns animais de carga, seguem as restantes 133 pessoas (homens, mulheres e crianças). A 14 de Maio alcançam a Huíla. Só em Junho, época seca, o governador de Moçâmedes se dignou deslocar-se ao local para distribuição de terrenos nas proximidades da fortaleza. Porque não haviam sido preparadas quaisquer instalações de acolhimento, foram os próprios colonos a improvisar pequenas palhotas para abrigo do frio que se avizinhava.
Logo à nascença desenhava-se o fracasso desta colónia militar. Porquê? Foram muitas as causas do fiasco: grande parte dos soldados “eram deportados com largo cadastro e de péssimas qualidades, outros eram degredados”; inexistência de arados e animais de tracção; desconhecimento das épocas próprias de sementeira das diversas culturas; escassez de sementes. Resumindo: que outro resultado se poderia esperar de uma colónia preparada a trouxe-mouxe!?... A agravar a situação, em 1860, a fortaleza e a ombala são atacadas pelos povos do Nano que culminou com a decapitação do sargento Silva, chefe da fortaleza. Sete anos depois, o governador de Moçâmedes num relatório recheado de mentiras e contradições escrevia: “A Huíla não serve para coisa alguma como colónia agrícola nem comercial”. Frase risível e infeliz: a colónia militar-agrícola passa a ser conhecida por colónia militar ridícula! Mal pensado, tal epíteto, por direito, caberia ao governador.
Por encaixar perfeitamente aos factos, vou transcrever um excerto dum parágrafo do livro “TERRAS ALTAS DA HUÍLA”: “as próprias autoridades administrativas não acreditavam na Huíla. Viu-se como em 1867 o governador de Moçâmedes chegava à amarga conclusão de que a Huíla não servia para nada. E quando, em 1873 cerca de 300 portugueses residentes no Pará pensaram em transferir-se para Angola, repetindo a odisseia de 1849-50,” o governador de Moçâmedes desaconselhou (negou) a pretendida transferência.
Outros desconchavos do género foram escrevinhados com a intenção de dissimular a ganância dos poderosos mandões. Para estes só interessava a cultura de produtos de rendimento imediato e seguro, à força de mão-de-obra escrava: algodão para exportação e cana-sacarina transformada em aguardente destinada à permutação por escravos, gado bovino e marfim. Porque na Huíla, devido à altitude e condições climáticas essas espécies não medravam, esta foi “ridiculamente” marginalizada. Mas não sucumbida.
Quarenta anos depois a “imprestável” Huíla era lembrada por João de Almeida, (governador do distrito, 1908 – 1910) no seu livro “SUL DE ANGOLA”, assim: “Na Huíla, ao lado das tentativas da colonização oficial, que em regra fracassaram (…), muitos portugueses oriundos de vários pontos da Metrópole se foram estabelecendo, os quais com os simples recursos do seu trabalho e do seu engenho, mas livres das peias do regime da colónia iniciaram os trabalhos da agricultura nos vales do Lupolo, Mutxa, Nene e Txipumpunhime e construíram, pode dizer-se, a povoação da Huíla, embora à sombra da fortaleza”.

Prosseguindo – Desde o meu despertar para olhar o berço que Deus me reservou e que o destino dele me afastou, 52 anos passaram. Longo espaço de tempo quando o imaginamos no porvir; mas tão curto quando memoriamos o nosso passado. É graças a essa faculdade que conservo, indeléveis, as imagens da Huíla: na sua forma física, laboral económica e social.

FisionomiaA uns 500 metros na margem direita do rio Lupolo, numa extensão de aproximadamente 3000 metros, situavam-se 20 fogos de adobo – uns cobertos a telha outros com chapas de zinco – afastados entre si e desalinhados, servidos por duas estradas paralelas: para carros de bois e para viaturas automóveis, ambas de acesso à Missão Católica. Neste conjunto de edifícios constavam quatro estabelecimentos comerciais e a escola primária, “Padre Carlos Duparquet”, com uma frequência média de 70 alunos confiados à Competente Professora D. Júlia Cândida Gil Armada de Menezes, onde permaneceu 25 anos.
Na margem esquerda do rio, com as mesmas distâncias do lado oposto, existiam 18 casas. À excepção da nossa – a adobo e coberta a capim – as demais eram de adobo, umas cobertas a telha outras com chapas de zinco, também afastadas entre si e desalinhadas. Não existiam estabelecimentos comerciais; mas contava com uma grande e completa oficina de veículos de tracção animal, propriedade de José Marques Gomes (Camacho, por ser natural da Camacha). Este lado era servido por uma estrada para carros de bois e na década de trinta foi feita uma desmatação com valetas laterais chamada estrada para automóveis, com uma curva à direita a seguir à nossa casa para, sobre uma tosca ponte feita de vigas de eucalipto, ligar à estrada da outra banda. Os dois lados descritos eram conhecidos por parte baixa da Huíla.
A noroeste, na falda da serra, entre a cascata e proximidades da Txípia a norte, lugar conhecido por Huíla, contava com: o posto administrativo; a residência do chefe; o matadouro e talho; um moinho movido a água; uma oficina de carroças; a igreja paroquial; um sobrado (casa de dois pisos) um bom estabelecimento comercial; dois grandes pomares de citrinos; nove moradias – uma delas com pequeno comércio anexo –; e ao fundo de uma avenida o cemitério e seus tristes ciprestes. Eu sentia pavor por este lúgubre aglomerado onde raras vezes pisei. Razões: a presença do aterrador posto administrativo com seus sipaios de sentinela, a palmatória de cinco olhos e o chicote de cavalo-marinho pendurados na parede; ao lado deste o sombrio calaboiço com presos tiritantes encostados às janelas gradeadas; o fedor das ensanguentadas e estagnadas águas provenientes do matadouro; o horripilante sibilar do vento ao passar pelas aculeiformes folhas das feias casuarinas ali plantadas como árvores ornamentais! …

Práticas agrárias – A contar das casas, até ao rio, cada família dispunha do seu terreno cuja área variava entre um e dois hectares, designado de alto – solo arenoso, ligeiramente desnivelado; e baixa – de natureza argilo-arenosa, quase plana – nas margens do rio. O alto, esgotado, só frutificava a poder de regular estrumação. Para o efeito – no nosso caso, com uma manada variável de 25/30 bovinos – durante a época das chuvas era feito um curral campal, com gastalhos da impenetrável “unha-de-gato”, para recolha do gado e sistemática estrumação directa. Semanalmente o curral era deslocado para o lado contíguo e de imediato lavrada a parcela libertada para retenção dos nutrientes produzidos pelo gado. Esta técnica repetia-se, de forma itinerante, todos os anos.
Nos finais de Março transferia-se o gado para local mais elevado, no meio da mata, como resguardo das frias noites de verão. Permanecia ali até meados de Setembro. Semanalmente distribuíam-se camadas de palha e folhas verdes, que misturadas com os dejectos resultavam num rico fertilizante. Este adubo, transportado, sem pressas, para a baixa – durante algum tempo em “cuim-cuim” e a partir de meados do primeiro quartel do século em carroça própria – iria servir, no momento próprio, para enriquecer a terra reservada à cultura de cebola, alhos e hortaliças.
Em simultâneo, com a transferência do gado, todo o alto passava por uma lavra com charrua reversível e regularização por pesada grade de um por dois metros, com três filas de dentes de ferro alternados. Por ordem do racional sistema de afolhamento, ao cair das primeiras chuvas – Outubro – procedia-se à sementeira de batata, feijão e outras leguminosas. Em Março semeava-se nova parcela de batata e feijão, assim como plantação de cará e tabaco. Em meados de Abril tinha lugar a sementeira do trigo dependente de regas semanais, por gravidade, asseguradas pela água da levada que entretanto entrava em giro.
Recordadas as engenhosas operações no campo alto, vou passar à baixa. Em Setembro, num talhão previamente preparado, procedia-se à sementeira, a rego, de milho temporão. Em Outubro, após a ceifa do trigo, à parte um espaço destinado aos legumes, cultivados todo o ano e alhos em Fevereiro, a restante área era charruada, destorroada e deixada em repouso temporário e à contingência de alagamento pelo transbordamento do rio. No início de Março cortavam-se cerce as plantas do milho temporão, já maduro, transportadas para a casa. Ali descamisavam-se as maçarocas e, atadas aos pares, penduradas em paus assentes nas paredes; enquanto os caules seguiam para o curral e a palha das maçarocas, amaciada, para as enxergas.
Colhido o milho, a terra passava por duas lavragens cruzadas, cava profunda e extracção do restolho. Seguia-se a abertura de regos, a cada três metros, para demarcação das leiras e condução da água para rega. Estas leiras, primorosamente aplanadas, davam lugar a um momento muito especial: a transplantação do cebolo dos alfobres, semeados nos princípios de Janeiro. A água, sempre à mão, derivava directamente do rio, dum açude torroado, a escassos metros do presente local. Em meados de Maio, na terra então em repouso, precedida de adequado amanho, tinha lugar a segunda sementeira de trigo. Esta sementeira, ao contrário da do alto, exigia apenas duas ou três regas até o amadurecimento. Recordei as operações por que passavam os campos e as épocas das várias sementeiras. Sem esquecer que estas, da germinação ao celeiro, dependiam de especiais cuidados permanentes.

Proveito dos frutos – Milho, muito dele produzido no arimbo do Noncoco, em grão sustentava as galinhas e porcos e em farinha para fins culinários, alimentação dos serviçais muilas e dos estimados cães de guarda; batata e feijão, consumo e venda; cebola e alhos, pequena parte para consumo e o grosso vendido no Lubango do qual, com o dinheiro realizado, satisfaziam-se algumas faltas de uso doméstico e pessoal e o restante adicionado ao pecúlio, bem guardado numa lata; trigo, consagrado ao pão-nosso de cada dia, cozido aos sábados.
Levadas – Mais conhecidas por valas, aos primeiros sinais de despedida das chuvas – Abril – cada agricultor procedia à limpeza da parte correspondente aos limites do terreno. No caso de um terreno inculto, os agricultores a jusante assumiam a limpeza da respectiva extensão. Estas valas derivavam, para os dois lados, dum precário açude “construído”, pelos agricultores em conjunto, com estacas e torrões argilosos, na cabeceira do rio, a cerca de 700 m da cascata. Só três quartos do caudal do rio alimentavam as levadas. O demais, aumentado pelas infiltrações, seguia o seu leito o qual, engrossado pelo remanescente do rio Mutxa ia, por meio de açudes, dadivar mais pão até à sua confluência com o rio Caculuvar – 40 km da sua impoluta fonte.
Por convocatória do chefe do posto, em assembleia, era eleito o juiz-de-vala, (não remunerado), assim como o levadeiro, com um modesto salário suportado, pró rata, pelos agricultores. De seguida, proporcional à área cultivada, ficava estabelecido o número de horas de rega – giro – a controlar pelo levadeiro. Até Junho o sistema funcionava do nascer ao Pôr-do-Sol; a partir daí, devido a gradual diminuição do caudal, o giro passa a ininterrupto.

Obras Públicas, exemplo rotineiro – Nas poucas visitas do governador do distrito, o povo concentrava-se no largo da Igreja Paroquial para o “beija-mão”. Acompanhado do administrador do concelho era conduzido para o palanque. À sua direita, o soba – trajado de branco com fitas de seda multicores – e o administrador; à esquerda, a professora da escola primária e o chefe do posto. Entoado o Hino Nacional, pelos alunos da escola da Huíla e da Missão Católica, seguiam-se as danças executadas pelos muílas ao ritmo da “ghoma” (bombo).
Passada a cerimónia solene, proferiam-se os discursos. Primeiro a professora que – de improviso – principiava com os cumprimentos de boas-vindas, etc., etc., terminando, em tom reivindicativo, com o pedido de construção duma escola condigna com cantina destinada aos alunos mais distantes e carentes. Segundo orador, Francisco Tavares a lembrar a necessidade e vantagens da construção duma represa, em betão, próximo da cascata, e a partir desta dois canais em alvenaria acima das velhas levadas; a substituição da tosca e frágil ponte de madeira por outra em cimento armado; solicitava ainda para que a linha-férrea, (em estudo) em direcção aos Gambos, passasse pela Huíla.
Do governador, em resposta às petições, o estafado “disco”: “a seu tempo todos os vossos anseios serão satisfeitos”. Paaalmas!. Para quê? Quando as bonitas promessas eram logo esquecidas.
Apoios a agricultura – Se existiam serviços de assistência e auxílio aos agricultores (penso que sim) eram puramente simbólicos. Só com a criação da Junta dos Cereais, em meados dos anos 40, teve lugar a distribuição de trigo para semente, reembolsado, com um acréscimo de 10% no acto das colheitas.
Sanidade Pecuária – Incompreensível! Enquanto no vizinho Sudoeste Africano – actual Namíbia – procediam à vacinação geral do gado bovino contra a maléfica “cauanha” (peripneumonia) com vacina produzida em laboratório, na Huíla, onde grassava esta epizootia, não foi tomado, por quem de direito, o exemplo do Sudoeste Africano. Pelo contrário, insistiam na empírica “vacina de campo” praticada por alveitares: aplicação duma pequena lasca de pulmão, dum animal contagiado, sob a pele na ponta do rabo, ligado com uma tira de pano-cru. De efeitos duvidosos, nalguns casos a zona da incisão degenerava em gangrena, obrigando a amputação da cauda.
Na década de 30 foi introduzida a vacina de laboratório. Porém, porque era cara e a pagar e não ter sido empreendida uma vacinação gratuita em massa, a moléstia persistiu. Só a partir do início de 1950 com vacina produzida em Angola e vacinação geral gratuita e obrigatória, a moléstia foi combatida, praticamente erradicada.
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Por fim – O meu louvor às maravilhas da pródiga Natureza, dádiva deleitável aos sentidos de quem ama as Obras do CRIADOR. A chilreada das avezinhas a anunciar a aurora de um novo dia, seguido do canto do galo – o canto que despertou o coração do angustiado Apóstolo Pedro; o radioso Nascer e Pôr-do-Sol; o mugido das vacas, o cacarejo das galinhas, o grunhido dos porcos; os melodiosos trinados das muitas espécies de aves canoras, o canto à desgarrada das três espécies de milhares de rolas; o ondular dos trigais; a cantoria dos homens nos campos. O deslumbrante Arco-íris a beijar o chão próximo dos nossos pés. E, a contrastar com o azul celeste, os eternos multiformes e níveos cúmulos, lembrando a nuvem que envolveu Jesus na Sua ASCENÇÃO AO CÉU. Belezas dignas de pincel de um mestre paisagista. Complexas vozes merecedoras duma composição sinfónica.
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Populações – Naquele tempo não existiam distinções rácicas entre a sociedade. Por isso e por respeito ao invulgar ambiente de boa harmonia entre a gente da povoação da Huíla e arredores, o adjectivo branco e mestiço não tem aqui lugar. O número de habitantes – de 1920 a 1950 – flutuou entre 300 e 350. Pelos apelidos que consigo rememorar dos tempos de escola, viviam ali cerca de 25 famílias.
Dessas, três merecem especial menção. Não por distinção de valores comparativos às demais; somente porque foram as mais prolíferas, “responsáveis” por mais de metade da população.
Foram, por apelidos, as seguintes:
1) – Santos Almeida / Guerra, 4 irmãos, 3 homens e uma mulher, a primogénita, que adoptou o apelido Guerra, do marido. Provenientes da região da Guarda / Portugal, estabeleceram-se na margem direita do rio Lupolo por volta de 1880. Da primeira casa e respectivo terreno no termo sul da povoação, em contínuo, até à 15ª atrás descritas, pertenciam a esta família.
2) – Família Moreira, consistia da matriarca, Guilhermina, angolana, viúva de um português ali chegado por volta de 1880, 7 filhos e 4 filhas. Os terrenos e sete casas, seis situavam-se, seguidas, no centro da povoação, margem esquerda; e uma na margem direita. A Guilhermina viveu 109 anos.
3) – Família Rodrigues e Rodrigues Panasco, já explicado.
Dos quatro filhos e duas filhas da Guerra, três deles casaram com primas. Entre as três famílias mencionadas aconteceram cinco casamentos.
Famílias Madeirenses, apelidos – Carvalho, Freitas, Góis, Henriques, Lisboa, Marques Gomes, (Camacho), Nóbrega, Rodrigues, Rodrigues Panasco, Rosa, Silva (Machiqueira), Sousa, Tomás.

Ainda – Nessa época e por mais alguns anos, legalmente, a população dividia-se em três classes: brancos, os nascidos em Portugal e Ilhas Adjacentes; euro-africanos, os descendentes de brancos independentemente da tonalidade da pele; indígenas, os pretos em geral. Havia, ainda os “assimilados” (em número insignificante), uma das muitas vergonhas paridas pelos mentecaptos “governantes”?!
Destas classes os mais papalvos eram os idos de Portugal, quer das cidades quer das aldeias. Precisavam de algum tempo para se civilizarem; de lhes “cortar o rabo”, como diziam os pretos. Mas eram os privilegiados até os anos de 40 no acesso ao funcionalismo público!
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2 comentários:

  1. Estive a ler com muita atenção os seus escritos. Acontece que sou trisneto do Comendador ANTÓNIO JOSÉ DE ALMEIDA, conhecido por Almeida da Chibia. Nasceu en Caconda em 1856 e era filho de INOCÊNCIO JOSÉ DE ALMEIDA que segundo dizem terá sido comandante ou capitão-mor de Caconda, onde terá morrido 1861 e eram ambos primo do General João de Almeida. Mais nada sei sobre os mesmos. Assim, caso possua algum tipo de informações, documentação ou algo que me possa ser util sobre os mesmos agradecia que me enviasse se não lhe causa transtorno. Sobretudo sobre o INOCÊNCIO JOSÉ DE ALMEIDA, designadamente, quem era de facto, de onde era natural etc. Quanto ao ANTÓNIO JOSE DE ALMEIDA, já confirmei na Torre do Tombo que foi agraciado com a Comenda da Ordem de Cristo pelo Rei, em 28 de Outubro de 1909, mas consta que terá recebido outras condecorações, Em tudo que me possa auxiliar ficar-lhe-ei imensamente grato. O meu e-mail é (alvesmota.mota@gmail.com). calorosos cumprimentos.

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  2. Vou contactar o meu pai e logo lhe direi o que ele sabe sobre os seus antepassados. Até breve

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