sábado, 20 de novembro de 2010

ADEUS ANGOLA NOSSA


Esta página tem por finalidade, transmitir às novas gerações,  momentos vividos por mim e familiares para que o que passamos, não caia no esquecimento.

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Adeus Angola

Às seis horas do dia seis de Setembro – sábado – em caravana de umas 300 viaturas, escoltada por 30 militares, arrancamos do Lubango rumo à África do Sul. Percorridos 380 km, sem problemas, às 17 horas atravessamos a fronteira de Santa Clara. Aguardava-nos um grupo de militares sul-africanos com colchões, cobertores, alimentos em conserva, água, refrigerantes e, até, uns cubos combustíveis para amornar os enlatados. Pernoitamos ao relento. Não fazia frio.
Às onze horas do dia seguinte – com feijão ao lume para o almoço – chega uma ordem de partida para Oshakati. Todas as viaturas foram reabastecidas (de graça) até à boca. A deslocação durou umas duas horas. Em Oshakati fomos “instalados” num campo próximo do hospital missionário, preparado para a situação, com algumas tendas, água encanada, latrinas e balneários. Com lenha à mão, o feijão volta ao lume. Cozido e apurado, foi servido como almoço/jantar.
No dia seguinte, de manhã, as autoridades, por altifalante, ordenam a formação em fila para registo dos refugiados e vacinação. Terminadas estas formalidades as autoridades solicitam – sob aviso de inspeção – a entrega de armas, drogas e literatura pornográfica; e diamantes a enviarem para classificação em Pretória e posterior pagamento de oitenta por cento do seu valor. Aos portadores de café, se desejassem vendê-lo, ser-lhes-ia passado um salvo-conduto para todo território sul-africano. Por fim foi-nos dada liberdade para exposição e venda (sem encargos) dos artigos que conseguimos transportar (salvados!).
Ali vendemos duas viaturas, uma moto, frigoríficos, máquinas de costura, fogões, louças, porcelanas, talheres e mais artigos. Tudo por um quinto dos justos valores.
Na tarde do dia nove somos avisados da partida no dia seguinte para o campo de Grootfontein, a 300 km.
A nosso pedido, por conveniência – em troca de umas garrafas de whisky – foi-nos permitido permanecer mais um dia no campo. Assim, o nosso grupo, agora em quatro viaturas, partiu isolado. Eram onze horas – onze de Setembro de 1975. Percorridos uns 100 km parte-se o veio da bomba de injecção da Bedford, sendo levada a reboque. Obrigados a marcha vagarosa passamos a noite, ao relento, em Tsumeb. Alcançamos o campo de Grootfontein às catorze horas do dia doze.
Ficamos todos alojados em tendas militares, com colchões e cobertores de sobra. Existiam balneários e latrinas suficientes, apesar dos estragos causados, por malvadez, pela leva – mais numerosa – que nos antecedeu.



Campo de refugiados em Groodfontein

Funcionava um serviço de pequeno-almoço e almoço. Porque era sempre a mesma “ementa” (carne de vaca com ervilhas) e mal confeccionada, passamos à cozinha própria, até para consumir a grande quantidade de provisões levadas de Angola.
Em tenda própria funcionava um serviço de assistência médica prestada pelo Dr. David Parson, filho do já referido Dr. Parson do hospital do Bongo.
Cerca de uma semana após a nossa chegada ao campo, o nosso grupo divide-se: Camilo, Adelaide, sete filhos com idades entre um e treze anos, em transporte rodoviário ocasional, partem para Windhoek; e dali, de comboio, até Johanesburgo munidos das passagens de avião, compradas em Angola, com destino ao Brasil.
Nos finais de Setembro o Dr. David anuncia a possibilidade de emigração dos refugiados no campo para os E.U.A., com transporte aéreo gratuito, através de uma instituição americana. Só seriam aceites inscrições de pessoas com os passaportes válidos.
A notícia despertou certa euforia. Como nem todos possuíam passaporte, por solicitação dirigida ao Cônsul de Portugal em Windhoek, este fez deslocar um funcionário ao campo a fim de formalizar a emissão dos passaportes. O meu, tem o número 278/75; o da Lucília, 282/75, emitidos em 3 de Outubro de 1975, assinados pelo Cônsul Carlos E. de Sousa Aragão.
Tantas voltas para nada. Efectuou-se apenas um voo. Explicações: insuficiência de fundos!...
Grootfontein. – Sítio árido, sol escaldante. Foi ali, numa tarde da primeira quinzena de Outubro, por carta de Maria Andrade para a Amélia, por intermédio duma prima em Lisboa, chegou a dolorosa notícia do falecimento do Pai, Avô, Bisavô, Irmão, Sogro aos que, uns dias atrás, o haviam visitado em sinal de despedida, agora tão distantes!


Campo de refugiados em Groodfontein

Os dias foram passando. Monótonos. Tórridos de sol a sol; frios durante a noite. No exterior da vedação mais de uma centena de vários tipos de viaturas estacionadas. Umas com as cargas de origem; outras vazias. No campo de Windhoek a situação era idêntica. Os seus proprietários – alguns já em Portugal – a vende-las por valores humilhantes preferiram abandona-las.
As autoridades sul-africanas não prometiam o embarque destas para Portugal; e da parte do governo português, nem sinais. Assim, a aproximar-se a hora da nossa “repatriação”, acabamos por “vender” as quatro viaturas por cerca de 50 contos. E, por muito favor, l000 litros de combustível e 500 de óleo por 5 contos.
De pasmar: nas vésperas da devolução do campo todas as viaturas abandonadas foram recolhidas para um recinto vedado; e no decorrer de 1976, tal como haviam sido abandonadas, despachadas para Portugal e entregues aos seus donos.
No dia 22 de Outubro é anunciada a nossa partida. Nessa noite, militares e alguns residentes da cidade, honraram-nos com uma festa de despedida, no recinto de jogos desportivos, com grupo musical.
No dia 23, os nossos pertences, devidamente rotulados, são transportados para a estação do comboio; e, de seguida, as pessoas: acomodadas, por agregado, em cabines com beliches de acordo com o número de indivíduos. Coube-nos a cabina 21, onde encontramos latas de conservas, fruta natural e bebidas. Ao meio-dia em ponto, ouve-se o silvar do comboio. Em toda a sua extensão, o acenar de muita gente, entre esta um Padre a dar-nos a sua bênção. Bem – hajam! Adeus Grootfontein!
Partida do campo de refugiados de Groodfontein para a estação de comboios.
Os poucos que ficaram no campo – entre estes o Zeca, Amélia e filhas – foram enviados para Johanesburgo, e dali, de avião, para Portugal.
Cerca das l7 horas o comboio pára na estação de Otchivarongo, para atrelagem doutras carruagens com mais gente proveniente do campo de Windhoek. Retomada a marcha, sem paragens, às 8 horas do dia 24, ouve-se o chiar dos travões a anunciar o fim da viagem e da linha-férrea. Estávamos no porto de Walvis Bay.
Sob denso nevoeiro, 1500 (?) desafortunados, em fila, vão sendo transferidos para bordo dum navio de cruzeiro, fretado pela África do Sul. A operação, cuidadosamente controlada pelas duas partes – autoridade sul-africana e tripulação do navio –, demorou umas duas horas. Foi respeitada a atribuição de camarotes e beliches de acordo com a praticada no comboio. Calhou-nos o camarote 21. Foi servido almoço e jantar no navio, ainda ancorado.
Dormimos bem. Seriam seis horas, dia 25, quando nos apercebemos que o “Oceanic”, de Taiwan, já havia levantado ferro. Cumpria a sua terceira e última viagem: numa missão sem nome.

ADEUS ÁFRICA!

barco copy

Oceanic Independence, o navio que nos trouxe para Portugal.

A bordo, em gabinete adequado ao seu trabalho, encontrava-se uma funcionária do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – IARN, de nome Lígia. A sua missão consistia no contacto com as famílias nucleares e indivíduos solitários – constantes da relação em sua posse – para efeitos, se necessário, de alojamento em Portugal.

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Às 8 horas da manhã do dia 7 de Novembro o majestoso transatlântico “Oceanic” entra na barra do Tejo. Às l0 horas atraca no Cais da Rocha, Lisboa. É colocada a escada para o desembarque. Mas tal não acontece. A “mando”duma comissão, previamente constituída – apoiada por todos –, o desembarque só teria lugar mediante a troca dos escudos “coloniais” por escudos portugueses. O refeitório, servido o pequeno-almoço, foi encerrado. Mesmo num entra e sai da funcionária do IARN para atender à situação, manteve-se o impasse. Ante tal momento, foram distribuídas latas de feijão, fruta e leite.
Às 22 horas é anunciada a troca da moeda, no aeroporto. As deslocações seriam de autocarro, em grupos de 30: cabeças dos agregados familiares e solitários. Em qualquer das situações, a troca era de 5.000$00 apenas! Atendidos os dois primeiros grupos – dos quais fiz parte – as operações foram suspensas.
No aeroporto, pelo mesmo motivo, assistia-se a uma situação confrangedora: na zona das chegadas, gente deitada no chão, enquanto os mais fortes, revoltados, mantinham-se firmes.
No dia 8 foram distribuídas pelo IARN senhas individuais de almoço, servidos pelos restaurantes próximos do cais.
Com a tripulação do navio a dar sinais de impaciência, a meio da tarde os passageiros espalham-se pelas varandas e convés com gestos de manifesto protesto. Depois dum constante sobe e desce, é retomada a troca de moeda no aeroporto. A comissão recusa mais deslocações. Exige que a operação fosse efectuada no navio. Quase de imediato entram dois “bancários”, com suas maletas, acompanhados por funcionários do IARN. Terminadas as transações, o pessoal abandona o navio. E, de seguida, descarregadas as bagagens, atiradas brutalmente para o chão pelos malvados estivadores.

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De rol nas mãos, os funcionários do IARN fazem a chamada e em simultâneo a separação em grupos – de antemão selecionados – para diversos locais de alojamento. Calhou-nos o Grande Hotel da Figueira da Foz. Onde, acompanhados pela S.ª Lígia, chegamos já próximo da meia-noite. Distribuídos os quartos – coube-nos o 421 –, mesmo àquela hora tardia, foi-nos servida, nos aposentos, uma merenda.





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Desgraça nossa: estávamos em Portugal; num Portugal sem rei nem roque… Em Angola, éramos cidadãos portugueses; da fronteira de Santa Clara ao porto de Walvis Bay, refugiados portugueses; em Portugal, apátridas! Os Bilhetes de Identidade de Cidadão Nacional, encimados com a distinção 


“R E P Ú B L I C A    P O R T U G U E S A” 

passaram a imprestáveis; nem sequer aceites para transcrição e posterior emissão dum novo B.I. de Cidadão Nacional. Para o efeito, era exigida a certidão de nascimento e a dum ascendente português constante na certidão. Em certos casos difícil e noutros impossíveis de satisfazer: daí o arrastar dos processos durante muitos anos e, até, esquecidos!
Do execrável e enganoso Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais – covil de ladrões – só a palavra retorno produziu efeito: enriqueceu o vocabulário com o douto adjetivo:

R E T O R N A D O ! . . .

Texto de Jorge da Conceição Rodrigues





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«A incompreensão do presente nasce fatalmente
da ignorância do passado".
Marc Bloch

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Chamaram-nos  RETORNADOS






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Neste ano, já é a terceira vez que vos escrevo acerca de 40 anos volvidos sobre diversos acontecimentos pessoais e familiares.
Desta vez, vou partilhar convosco a nossa parcela, considerando a minha família nuclear e próxima, no êxodo que constituiu a vinda de muitos milhares de refugiados deAngola, Moçambique e dos outros territórios. Por diversas formas vieram, como é consabido. No caso de Angola: grande parte dos refugiados veio pela ponte aérea paraPortugal; outros ainda vieram em navios diretamente de Angola para Portugal enquanto possível; outros milhares, refugiaram-se no Sudoeste Africano (hoje Namíbia) e na África do Sul, onde alguns conseguiram por lá ficar, mas, grande parte destes certamente teve de rumar para Portugal também, ou para outros países, quer por via aérea, quer por navios fretados para transportar os refugiados que estiveram temporariamente alojados em campos. Os números de cada situação e os globais são um tanto imprecisos, consoante as fontes, mas todos juntos fomos largas centenas de milhares de refugiados das antigas províncias ultramarinas.

Ora, narro agora o nosso caso, o da odisseia do meu grupo familiar. Era outubro de 1975. Face às condições de grande instabilidade político-militar na pré- independência de Angola, insegurança, lutas constantes entre forças do MPLA e da UNITA na cidade do Lubango, onde vivíamos nessa conturbada época, aliada à crescente escassez de bens de primeira necessidade, deficiência na assistência de saúde, enfim a zona e a cidade a aproximarem-se quase do colapso social, comercial e económico. Tempos pois estonteantes, de muito risco, altamente inseguros sob todos os pontos de vista, pelo que, fomos forçados a tomar a resolução de também partir... Tal qual, como milhares de refugiados já o haviam feito antes de nós, e como outros o fizeram depois. Era a salvação imediata. E o destino que escolhemos, face a haver uma ponte aérea, foi Portugal, reforçado por alguns de nós sermos funcionários públicos, o que permitiria, prometia-se, e veio a acontecer, ingressar no funcionalismo em Portugal, num criado quadro geral de adidos.

Eis, pois, a constituição desse grupo, desta família que fora de José Maria Rodrigues (este falecido, em condições confrangedoras, no Lubango pouco tempo antes, em 26.09.1975, como já relatei noutro escrito que vos enviei): Irene, minha mãe, na época com 64 anos; sua afilhada Joana, jovem de 14 anos; meu irmão Higino, 32; sua mulher e minha cunhada Aldina, 29; seu segundo filho Bruno, com tenra idade; minha mulher, Helga, 23; com nosso bebé Henrique, quase recém-nascido pois tinha um mês e meio de idade; minha filha Graça, 8; e eu, Júlio, com 31 anos. Nove pessoas ao todo, sendo cinco adultos, três crianças e uma adolescente.

Nas semanas anteriores, foi conseguir encomendar caixotes nas últimas carpintarias em funcionamento na cidade, e ir enchendo-os com o possível: máquina de lavar roupa, outros pequenos eletrodomésticos, máquina de costura Singer (da minha idade, pois entrou na minha casa em Caluquembe no dia em que nasci e que ainda hoje a conservo), tapetes, carpetes, utensílios, aparelhos diversos, bibelôs, imensos livros (meu pai possuíra uma biblioteca razoável e havia sido um grande leitor), algumas mobílias e peças de mobiliário, álbuns de fotografias, slides, malas da cânfora, bar chinês, projetor de slides, écran, utilidades diversas e inúmeras outros objetos que era possível meter em uma dúzia de caixotes, de diversas cubicagens. Tentávamos encaixotar a nossa vida…disfarçar o vazio que crescia na nossa alma.
A minha tia Madalena, prima direita e cunhada de minha mãe, foi incansável na ajuda que nos deu a arrumar os caixotes. Mas de notar que a maioria desses bens encaixotados pertenciam ao recheio da casa de minha mãe, e que fora do meu pai; bem como ao recheio da casa do Higino e Aldina, que arranjaram igualmente os seus caixotes. Mas, os pertences, meus e da Helga, constituídos sobretudo pelas muitas prendas de casamento, este ocorrido ainda não havia um ano na ex-Nova Lisboa (Huambo), ficaram por lá, visto que as condições de insegurança ainda foram piores, mais insuportáveis que as do Lubango e já não foi possível aos pais da Helga, onde os nossos bens se encontravam guardados, providenciarem o seu transporte para Portugal. Quanto aos automóveis, consegui ir a Moçâmedes, uns tempos antes da nossa partida, despachar o carro de meus pais, um Audi 100 LS, e o meu, um Autobianchi A111. Estacionei os dois juntos no imenso parque de viaturas à espera de embarque; ainda pensámos meter coisas nos porta-bagagens mas, receosos, não o fizemos, e ainda bem, pois só o meu carro chegou a Portugal, o de meus pais nunca apareceu…Houve quem o tivesse visto a circular, tempos depois, numa cidade em Angola, subtraído assim ao embarque... O Higino e a Aldina também despacharam dois automóveis, um seu (Mini) e outro (Lancia) dum cunhado os quais tiveram o mesmo destino, isto é, nunca chegaram a Portugal.

Voltando ao Lubango: lá conseguimos ainda alugar uma camioneta que levasse os caixotes à estação do Caminho de Ferro, sita no bairro de Stº António, que seriam transportados para o porto de Moçâmedes (hoje Namibe) a fim de seguirem para Lisboa. Todos estes afazeres, formalidades alfandegárias, requerimentos, guias de desembaraço, etc., quer em relação aos bens, quer a nós próprios, eram conduzidos num stress indescritível, com muita tensão e nervos, e sob emoção e tristeza, face ao abandono iminente de nossas casas e de muitos outros pertences, ainda que alguns fossem móveis eram intransportáveis, mas sobretudo chorávamos por dentro pela saída, forçada pelas
circunstâncias, da nossa, e de nossos ascendentes, querida terra angolana, e assim deixarmos os nossos sonhos. E ficámos apenas com a memória. Talvez alguns acessos de tristeza estivessem a ser anestesiados no momento, pela psicose coletiva que se estabeleceu, ao haver todos os dias um número crescente e imparável de refugiados de partida da cidade, entre conhecidos, desconhecidos, amigos, familiares. E, ainda, no coração de cada um, decerto, haveria uma réstia de esperança de um dia no futuro voltarmos a viver e trabalhar na nossa querida terra angolana…que não desejáramos abandonar (mas a este grupo familiar que relato nunca aconteceu alguém voltar a viver em Angola, pelo menos até à atualidade…).
As datas que refiro de seguida, penso estarem certas. Assim, o dia 10 de outubro de 1975 chegou. Foram as despedidas finais emocionantes, da prima Isaura que chorava, da Madalena que não chorava mas tinha um semblante tristíssimo (ela também, sem o imaginar na ocasião, teria de refugiar-se em Portugal meses depois), etc. Era o meu pai que ficava e deixávamos… lá no cemitério da Mitcha. Tomámos um comboio na estação de Stº António, aliás a estação que servia e serve o Lubango, visto que na época a antiga já fora desativada. Chegava a noite desse dia. Nós, e dezenas ou centenas de outros refugiados tomámos o comboio. Lembro-me que, pelo menos, a cabine onde viajámos, não tinha luz e fizemos a viagem de noite inteira às escuras… O meu amigo de peito e colega Pissarra, padrinho de casamento da Helga, também viajou nesse comboio e connosco continuou, passando praticamente a fazer parte do nosso grupo familiar.

Chegados pela manhã do dia 11 a Moçâmedes, fomos desembarcados no porto comercial. Estava-nos destinado um navio da Armada Portuguesa, a navio tanque reabastecedor S. Gabriel (que hoje já não existe; ver foto). Ali fomos arrumados para  pernoitar da forma como foi possível, mais ou menos assim: mulheres e crianças na coberta, homens no convéns, praticamente ao relento ou nos “varandins” laterais. Não nos queixávamos, resignávamo-nos. E, lá se iniciou a viagem marítima pela costa angolana, julgo que já era da parte de tarde, rumo à capital Luanda. Levávamos connosco farnéis e alguns pertences em malas ou sacos que nos podiam acompanhar. Não tivemos frio, pois em Angola, em outubro, está temperatura amena, não choveu, e dormimos, os homens, encostados uns aos outros, lá em cima, éramos muitos e havia que rentabilizar o espaço, e as mulheres e crianças em beliches na coberta, como já indicámos atrás.


 

Navio tanque reabastecedor da Armada Portuguesa


Fotos seguintes: 11 e 12.outubro.1975



  No porto de Moçâmedes enquanto se aguardava o embarque
(Helga com bebé Henrique, Joana, Irene e Aldina)


 Idem, quase a embarcarem (em primeiro plano consegue-se ver o nosso grupo familiar)

  
Pela manhã, começava o dia 12, até avistámos golfinhos, pois quando navegávamos no final do percurso já o sol rompera, até aportarmos em Luanda.
Irene, Higino e Aldina a bordo do navio reabastecedor da Armada Portuguesa
S .Gabriel, rumo a Luanda

Aguardámos algum tempo no navio e depois fomos levados em autocarros, julgo lembrar-me, para o antigo quartel do batalhão de paraquedistas 21, nos arredores de Luanda, em Belas. O qual estava feito num autêntico campo de concentração, degradado, com instalações sanitárias imundas, falta de água com frequência. A Helga, o bebé e as mulheres e crianças lá armaram melhor proteção, dos mosquitos também, numa antiga caserna e os homens preferiram dormir quase ao relento, e no chão. O Pissarra continuava connosco. Havia distribuição de alimentos e organização dos grupos que seguiriam nos próximos aviões da ponte aérea.

E, faziam-se avisos e chamavam-se pessoas por altifalantes ou íamos a uma secretaria saber informações. Felizmente para nós, apenas estivemos ali uma noite e um dia, mais ou menos, nesse campo tão desolador e tão sujo já, do que fora um impecável quartel. O Pissarra e eu, ainda conseguimos, arranjar forma de irmos ao centro da capital, mormente para recolhermos os nossos processos individuais nos serviços de veterinária de Angola, o que era facultado a quem viesse ingressar no tal quadro geral de adidos.

No aeroporto de Luanda, na noite de 13 de outubro, pisámos pela derradeira vez o solo angolano. Tomámos, um avião soviético, apercebemo-nos disso no decorrer da viagem, rumo a Lisboa. Na cabine só podíamos trazer o indispensável, pois malas e objetos considerados a mais iriam no porão, não facultaram nada. Na barafunda da entrada para o avião, perdeu-se o leite em pó e o biberão do Henrique. A bordo, lá conseguimos que as assistentes arranjassem um biberão e outro leite, mas, para um bebé, foi uma alteração rápida e daí, talvez, o desencadear dum problema de gastrenterologia e desidratação que adveio dias depois em Lisboa, com o seu internamento, com prognóstico muito reservado, no hospital pediátrico D. Estefânia, onde, à partida, houve muita dificuldade em o internar, o que foi conseguido face à sensibilidade dum médico espanhol de serviço. E onde o bebé, sem saber, lutou pela vida durante talvez mais de dez dias. Voltando ainda atrás, à viagem de avião para Lisboa: forneceram-nos refeição a bordo e tentámos dormir, tão exaustos estávamos, psíquica e fisicamente.

Chegámos a Lisboa manhã cedo, era o dia 14 de outubro de 1975. A Cruz Vermelha encaminhou a Helga e o bebé para um local mais recolhido naquelas instalações do edifício do aeroporto, espaços repletos impressionantemente de pessoas, a maioria sentada ou deitada no chão, atapetado com cobertores, com a humidade e o frio já do outono, tudo para nós desconhecido e quase nos amedrontava. Num balcão improvisado do Banco de Angola, trocaram-nos 5 contos de escudos angolanos, por pessoa, por 5 contos do dinheiro de Portugal, embora trouxéssemos, alguns de nós,
dezenas ou centenas de contos angolanos das nossas poupanças. Dinheiro angolano esse que se tornou lixo. Porém, outros refugiados, sabia-se, nem os cinco contos tinham para troca.

Nesse dia ainda, a Helga e eu, apanhámos um táxi para irmos para o parque municipal de Monsanto procurar a casa dum amigo que nos veio a receber durante algum tempo; o táxi deixou-nos algures por Monsanto, perante uma morada incerta, e ainda tivemos de muito andar a pé para dar com a casa do nosso amigo, funcionário do parque, o Pedro Baptista. Desconhecíamos que o IARN, Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, nos podia ter dado alojamento em hotéis. Mais tarde, viemos a fruir desse apoio. O Higino, Aldina e Bruno foram logo encaminhados, sem muito esperarem, por um cunhado, o Luís que já chegara a Portugal há semanas, para um hotel em Colares. E assim, o grupo separou-se logo à chegada a Portugal. Foi pena, mas foram as circunstâncias. O Pissarra seguiu para o norte para junto de sua família.

E, fomos tentando resolver as nossas vidas de imediato, de desenrasque em desenrasque… De luta em luta. De fila em fila.

Do grupo familiar, cada um teve o seu percurso pessoal e profissional nestas quadro décadas. Sucintamente: minha mãe, Irene, foi doméstica, viveu sempre comigo, faleceu aos 99 anos em Sesimbra; Joana, afilhada, trabalhou em diversos locais, tem um filho, e hoje vive e trabalha em Inglaterra (já foi algumas vezes ao Lubango); minha filha Graça trabalhou em várias empresas, teve três filhas, reside no concelho do Seixal onde é empregada duma indústria; Higino, meu irmão, reside no concelho do Seixal, tem três filhos de Aldina, que foi professora do ensino básico, e faleceu aos cinquenta e tal anos, em 2002, foi sepultada onde vivia ultimamente, em Mafra; seu filho Bruno, é hoje bombeiro e reside na Ericeira; Helga é funcionária e reside em Sesimbra, tivemos mais dois filhos para além do Henrique, este licenciou-se, é funcionário municipal em Sesimbra e reside na Amora, tem três filhos; por fim, eu, Júlio, fui médico-veterinário municipal em Sesimbra, hoje já aposentado, e onde resido (fui duas vezes à nossa terra Lubango: a primeira em 2003, com o Henrique também; a segunda, em 2013, sozinho, ao Lubango e Caluquembe, esta minha terra natal).

Fez há dias, em 14 de outubro, 40 ANOS QUE CHEGÁMOS A PORTUGAL. Outras terras, outras gentes, outras vidas. Os tempos seguintes, ou seja, os primeiros dias, semanas, anos e décadas, duma vida nova, diferente, difícil e desenraizada, onde a amargura pela saudade da terra e da vida que deixámos em definitivo lá longe nunca se desvaneceu, ficarão para outros escritos, talvez.

                                                                                Júlio Rodrigues (Sesimbra, out.2015)




11 comentários:

  1. ESTÁ FANTÁSTICO..É A NOSSA HISTÓRIA:-))PARABÉNS!!

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  2. Querida Ana Paula,

    não sabia dessa sua história...
    Que triste...
    Vejo reportagens, filmes, documentários sobre as guerras e tudo mais...
    Nunca tinha conhecido ninguém que tivesse vivido tal barbaridade...
    Fico triste por você e por todos.
    Obrigado por compartilhar.
    Obrigado por ter escrito e por ter gostado da homenagem.
    Venha sempre nos visitar.
    Espero que um dia volte a sua Terra tão amada.
    Até lá, que Portugal seja sua Terra e que fique bem por ai.
    Beijos com carinho e respeito.

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  3. Também passamos por esse campo de refugiados"groodfontein",na memoria que trago de criança,lembro-me das tendas, dos militares,do cantar do galo pela manhã,a chuva, a lama nas tendas,comer enlatados.adorava aqueles cubos brancos,supostamente com componente inflamável,era assim que aquecíamos a comida.A minha mãe Ivone de Freitas,estava colocada na distribuição da comida,eram longas as filas para recebermos as refeições.Eu,meus irmãos e outros miúdos, limpávamos o lixo dos recintos,e ganhávamos caramelos, pasta de dentes e escovas...,chegamos a pernoitar na morgue,foi um alarido quando descobrimos que era a morgue,mas, tínhamos de nos sujeitar.Lembro-me das supostas casas de banho:)"tudo ao molho e fé em Deus",a minha mãe ficava furiosas, pois punham-se os militares que ficavam na vigília la do alto de umas torres,a ver o panorama de binóculos...tempos infelizes para os meus pais,eu como criança,queria era brincadeira.Viemos de avião, passamos como muitos,pela distribuição de cobertores e 5.ooo escudos por cabeça(como diziam).Do Aeroporto fomos mandados em autocarros para Trás-os-Montes,Pedras Salgadas onde ficamos 2 anos e pedimos a transferência para lisboa. Quando relembro os campos,comparo-os aos do tempo dos judeus,claro que não sofremos o que eles sofreram,nem havia fornos de cremação,até que foi uma transição pacífica para nós.Viemos de mãos vazias e por cá uma nova vida começamos,longe de tudo e de todos e só com o tempo,foram surgindo contacto com familiares.....
    Histórias de guerra sem precedentes.Saudades da terra amada,da infância feliz e livre.
    Por:
    Humberto Walter de Freitas Aguiam

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    1. Onde senti que estava a ser observada pelos militares, foi no quartel militar de Sá-da-Bandeira - agora Lubango. Possivelmente a sua mãe serviu-me ervilhas (prato habitual) na minha tigela de alumínio.

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  4. Boas memorias, nunca imaginei a enchente no embarque de Portugueses para portugal

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  5. Bem vindo ao blogue Sandula-Caluquembe. O Celestino também é natural de Caluquembe? Cumprimentos

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  6. Vossa História constitui a união vossa e a nossa pela Lingua

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    1. Completamente de acordo. Obrigada João Cambange

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  7. Boa tarde Ana. Agora agora que já entrei no seu Blogue e pela mesma História preciso da sua ajuda:
    tenho aí em Portugal propriamente em Setubal uma Senhora de nome Anabela Antónia Gavaia filha de uma Angolana de nome Margarida Nené de Municipio de Caconda Provincia de Huila bem próximo de Caluquembe, Ela é fiha da irmà da minha mãe. Eu ainda antes de ela ter ir à Portugal nas mesmas condições das que relataste no ª Adeus nossa Terraª cheguei de conhecê-la e trocava nos Anos 1980 correios connosco. Perdemos completamente correspondência. A avó que levou ela para Portugal Chama-se Rosa. Precisava tanto voltar trocar correspondência por seu intermédio. Ajuda a Localização dela. Por favor

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    1. Ola João, não vai ser facil encontrar a Anabela Gavaia. Fiz no entanto uma pesquisa no facebook e encontrei uma senhora com nome idêntico. Recomendo entrar em contacto por mensagem privada, quem sabe seja a mesma pessoa. clique no link https://www.facebook.com/profile.php?id=100007268477644&sk=about&section=living&pnref=about

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