quinta-feira, 11 de abril de 2013

CALUQUEMBE – De povoação a vila – Apontamento histórico



No tempo da administração portuguesa
Caluquembe está situado no norte da hoje província, antigamente distrito, da Huíla em Angola, a 1769 m de altitude. Paisagisticamente lembrando, da localidade avistam-se a poente as serras de Cachicacala e mais acima a do Pindiangolo. O rio Sandula nasce exatamente na anhara (planície desarborizada) húmida de Caluquembe.
Criado em 1916 era a sede de um posto administrativo até 1965, um dos três, do concelho de Caconda. Povoação marcadamente comercial com parte alta e parte baixa o que a alongava. A secretaria e residência do chefe do posto administrativo situava-se mais ou menos no meio da localidade assim como a escola primária mais antiga, a nº 45, de Paiva Couceiro; depois foi construída uma outra escola primária na zona alta da localidade. Havia: uma igreja antiga a qual nos anos 60 foi demolida para ser edificada a atual ao lado da anterior; nova sede do posto e administração e residência da autoridade; posto sanitário com enfermeiro permanente e residência; clube recreativo (e beneficente) que também passou a ter sede própria cerca de 1963 a qual foi edificada de raiz embora tivesse de ser reconstruída depois; campo de futebol; armazém/capatazia da junta de exportação/instituto dos cereais depois transferido o armazém para os serviços de agricultura e florestas; posto de correio e telefone em tempos funcionando em loja de comerciante mas que depois ficara adstrito ao posto administrativo; cerâmica da autarquia; cacimbas (poços) diversos substituídos por captação de água municipal, depósito e distribuição; central elétrica para distribuição e iluminação pública e, naturalmente, cemitério.
Todos os anos aconteciam junto ao clube sobretudo as sempre agradáveis festas de Caluquembe com torneios de futebol, provas de tiros ao alvo, pratos e pombos, baile, quermesse, quino, bar/restauração, corridas de bicicletas, etc., chegando até a haver um rally automóvel. Também se realizavam os bailes de passagem de ano, da páscoa e outros.
Nos anos 60 foi construído um parque infantil e feita uma piscina mista que se tornou também num agradável e frequentado local de lazer e encontro social da terra durante anos. Quanto a cinema, houve tempos de sessões esporádicas de “cinema ambulante” mas que mais tarde passaram a ser regulares, ao domingo, com filmes projetados no clube. Neste também aconteciam ocasionais espetáculos de teatro, variedades e outros.
Não queremos deixar de citar alguns professores, os mais antigos, que lecionaram na escola primária 45: Maximina Fernandes, Cecília Dias, Lourdes Veiga, Ilda Tavares, Lourdes Alpoim, Fátima Santos, Joaquim da Costa Gomes, este sendo músico de vários instrumentos também foi inesquecivelmente um divulgador da música instrumental e coral e estimulador da sua aprendizagem na localidade, Hermengarda Moura, “Lia”, Dulce Tenreiro, Aldina e Silvina Gonçalves e vários outros depois, quer nessa primeira escola, quer na outra mais nova.
No final do século XIX fora fundada por Héli Chatelain a missão evangélica em local próximo ao que viria a ser a povoação de Caluquembe, que chamar-se-ia de filafricana com hospital missionário e leprosaria, hospital de referência que teve (e tem) importante e notável ação médica, cirúrgica e profilática. Nomes como os dos drs. Rodolphe Bréchet, este um eminente leprólogo a nível mundial, Lennart e Elisabeth Hoffmann-Straüb, Julião Kirb e outros, não só médicos-cirurgiões como enfermeiros, mas também vários missionários suíços e não só, ali trabalharam ou dedicaram parte ou toda a sua vida missionária e profissional pelo que ficaram ligados historicamente à missão em si mas do mesmo modo a Caluquembe e à região. Na vila também foi aberto um salão evangélico com cultos dominicais.
A autarquia paralela ao posto administrativo era a junta local cuja presidência o chefe de posto, mais tarde, chamado administrador de posto, acumulava. Foram vários os chefes/administradores de posto que chefiaram o posto administrativo de Caluquembe. Recordemos muitos deles: Gomes Ferreira, Costa, Lelinho, José Afonso Lomba, Deillot, Figueiredo, Manuel Coelho da Graça, Manuel Antunes da Silva, Leonildo S. B. de Magalhães Varandas, Adriano da Costa Fernandes e o último, isto é, até à elevação a concelho, Amílcar Largo Antunes. Houve também alguns aspirantes/adjuntos de administrador de posto.
A importante estrada entre Lubango e Huambo atravessa a localidade e na vila começa praticamente outra estrada, a de Caluquembe à Ganda. Assim, as populações residentes e passantes eram servidas por diversas carreiras mistas de carga e passageiros. Uma pista de aviação em terra batida para avionetas era (é) um equipamento a assinalar.
À vista de Caluquembe existia (e mantém-se) a missão católica de Santiago, masculina e feminina, com grande igreja; possuía escolas, moagem, enfermaria e carpintaria. De recordar o suíço padre Otto Balmer seu fundador em 1962 que passou grande parte da sua vida sacerdotal missionária nessa e noutras missões da área, nomeadamente na do Cola, para além de paroquiar na própria igreja da povoação. Em 1970 a paróquia foi provida de pároco permanente a residir em casa paroquial.
Vários sipaios (força policial administrativa) chefiados por um cabo prestavam serviço no posto administrativo depois administração do concelho assim como estavam ligados ao posto/administração algumas regedorias e sobados e respetivas autoridades, regedores e os tradicionais sobas (e destes dependiam os seculos). As populações e autoridades de Caluquembe receberam várias visitas de governadores de distrito da Huíla e governadores-gerais de Angola. O presidente da república portuguesa Craveiro Lopes em 1954 passou, sem se deter contudo, por Caluquembe ao regressar em cortejo automóvel de visita ao vizinho colonato agrícola de Caconda.
Em 1965 Caluquembe foi promovido a concelho ficando com quatro postos administrativos: posto sede, Chicomba (desanexado de Caconda), Negola (desanexado de Quilengues) e Calépi (mas este nunca funcionou). A junta local passou a câmara municipal. Foi seu primeiro administrador e presidente da câmara por acumulação Fernando Gomes Maurício; seguiram-se-lhe Eduardo Matoso Pio, Norberto Mário Fernandes, Bértilo Teófilo Coutinho e o último, ou seja, até 1975, Mácara Gomes, coadjuvados naturalmente por adjuntos de administrador de concelho e outros funcionários administrativos.
Por altura de 1971 foi fundada a escola preparatória facto que veio incrementar muito a educação no concelho e dar uma nova vida estudantil e de professores à vila. Para a sua criação contribuíram financeiramente as duas missões, evangélica e católica, e alguns comerciantes e outros profissionais do concelho, totalizando essa contribuição 50% da despesa de instalação da escola, o que é notável. Foram criadas também: delegacia de saúde mas nunca provida de médico permanente!; zona pecuária; estação dos CTT autónoma da administração do concelho; secção concelhia do movimento nacional feminino; para além das funções que eram inerentes à administração do concelho tais como notariado, julgado municipal, etc.
Houve duas moagens com moinhos de martelo. O Banco Pinto & Sotto Mayor teve uma agência em Caluquembe que manteve até 1975 e também houve correspondentes de outros bancos. Havia: três postos de abastecimento de combustíveis e lubrificantes; duas pensões, a pensão central de Ruas da Silva, que era uma referência, e depois também a de Armindo Mendonça; alguns bares/restaurantes; talho; duas padarias; oficina de reparação automóvel; sapateiro; alfaiates; barbeiro ambulante mas mais tarde funcionou uma barbearia fixa; etc.
Na povoação, depois vila, a construção de novos estabelecimentos e habitações foi-se efetuando ao longo dos tempos aumentando-a pois era sobretudo uma localidade comercial com muitas lojas como se dizia de comércio misto onde se vendiam mercadorias mas também se compravam os produtos, de que o milho era predominante, dos camponeses das inúmeras aldeias da zona e cujos terrenos cultivavam. A listagem dos comerciantes que estiveram estabelecidos em Caluquembe ao longo de décadas seria enorme e não cabe neste apontamento; e embora este escrito se centre sobretudo no perímetro da povoação/vila, por curiosidade, cita-se que na zona do Calépi, a pouco mais de 20 Km, havia pequenas mas muito produtivas plantações de café, assim como havia uma grande fazenda de café da família alemã Hey num local designado por Coporolo.
Hoje
Caluquembe é sede dum município muito populoso; estima-se que este tenha uma população de 250000 habitantes. A sua área é também assinalável (atribui-se 4249 Km2), sendo um dos 14 municípios da província da Huíla, e é formado pelas comunas sede, Ngola e Calépi. Faz limite com outros 8 municípios, dois dos quais (Ganda e Chongorói) da província vizinha de Benguela, aliás onde Caluquembe também chegou a pertencer até aos anos 30. Na internet poder-se-á encontrar muito do que é Caluquembe na atualidade.
Mas este apontamento dedicou-se sobretudo, repete-se, à própria povoação/vila de Caluquembe e seu desenvolvimento até 1975, primeiramente sede de posto administrativo depois sede de concelho. Agradeço as ajudas que me deram meus familiares Jorge, Higino e Paula Rodrigues.
Júlio Henrique Rodrigues
 
clip_image002Caluquembe antigo - Casa e loja de José M. Rodrigues
clip_image003Caluquembe - Escola Primária 45
clip_image005Caluquembe – Zona baixa da vila (1972)
clip_image007Caluquembe – Residência do administrador
clip_image009Caluquembe – Posto depois Administração

Este artigo foi PUBLICADO NO LIVRO DO 35º CONVÍVIO “OS INSEPARÁVEIS DA HUÍLA” (Caldas da Rainha - 7 e 8.julho.2012)
 
 
“A propósito e no seguimento do artigo anterior e para melhor informação fotográfica do que era Caluquembe no tempo antigo, tomamos a liberdade de acrescentar neste blogue, com o acordo do autor do artigo, algumas fotos que beneficiarão o Apontamento histórico”.    
 
 
imageCaluquembe –Procissão


 Caluquembe –Torneio feminino de tiro ao alvo

imageCaluquembe –Torneio masculino de tiro ao alvo



Caluquembe –Rally automóvel

De pe Martinho, Orlando Mendes, Matias, Adão, Camilo Santos, Agostinho sentados Joaquim, não sei Antonio Santos Helder Mendes, Joaquim Ruas
Equipa Futebol – Clube Recreativo de Caluquembe de pé, da esquerda: Martinho, Orlando Mendes, Álvaro Matias, Adão Rodrigues, Camilo Santos e Agostinho Henriques. Sentados: Beto (sobrinho de António Costa), Hernani Mendes, António Santos, Helder Mendes e Joaquim Ruas
(Foto da colecção de Ze António Rodrigues)

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