quinta-feira, 11 de abril de 2013

JOSÉ MARIA RODRIGUES

 


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NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO –11.Jan. 1905 - 2005

 



Nota Prévia

Escrever sobre a vida de alguém não é tão fácil como às vezes poderá parecer. Enquanto redigimos e pensamos que já relatámos o essencial, vão continuamente surgindo na nossa mente e nas conversas outros episódios, factos, posturas ou detalhes que nos escaparam e que achamos interessante ainda referir pelo que continuamos imparavelmente a acrescentar, corrigir, etc. Com efeito, nunca está completa a descrição pretendida e como alguém dizia tudo se pode dizer numa frase, num livro ou num tratado... depende de quem e o que se pretende relatar. Mas neste escrito tentámos sintetizar o máximo. Seja como for, o que se segue foi o historial possível mas provavelmente sempre nos lembraremos depois de alguma coisa, nome ou facto, que ficou por registar e que gostaríamos de o ter feito se nos tivéssemos recordado a tempo; ou até provavelmente há erros ou inexactidões. Paciência. E assim, após sucessivos aperfeiçoamentos e acréscimos, tivemos que dar mesmo por finda esta memória comemorativa dos 100 anos sobre o nascimento, e percurso, do homenageado, José Maria Rodrigues.

 

Intróito

A partir de 1885 foram recrutados na ilha da Madeira futuros colonos para o planalto da Huíla no Sul de Angola. Nesse ano tiveram lugar duas viagens a que a história chama de “colónias” e, na primeira ou na segunda, não se sabe ao certo, seguiu uma viúva de nome Maria Gonçalves Panasco – cujo marido fora Manuel Rodrigues Panasco – juntamente com cinco filhos: Maria, Manuel, João, Maria José e José. Julga-se que estes dois últimos nasceram depois da viuvez, fruto de uma ligação com um homem de origem inglesa. O João tinha entre os 8 e os 10 anos, talvez, de idade e, quando chegou a adulto, casou em 1903 na Missão Católica da Huíla com Maria José. Esta era filha de Baltazar Rodrigues, alfaiate, natural de Rio de Mel – Trancoso, inocentemente condenado e deportado para Angola para onde foi acompanhado por um filho de nome Augusto deixando outro em Lisboa por à última hora se ter negado a seguir com o pai, cujo motivo da pena foi um crime a si atribuído mas que mais tarde o tribunal em Portugal reconheceu a sua inocência dando-lhe oportunidade de regressar à terra mas que desgostoso já não quis, e de Delfina de Jesus natural de Serra de Água, Madeira, que também fizera parte duma “colónia” madeirense, os quais tiveram quatro filhos: José, a citada Maria José, Ermelinda e Emília. Do casal João Rodrigues Panasco e Maria José Rodrigues resultaram 12 filhos que se indicam a seguir, um dos quais, o primogénito, foi José Maria Rodrigues.

Dados biográficos e escola

José Maria Rodrigues nasceu em 11.Janeiro.1905, às 9H30, na povoação da Huíla, freguesia católica de Nª Srª da Conceição, situada a cerca de 25 km da cidade do Lubango (antigamente Sá da Bandeira), que estava e está inserida no município do Lubango. A cidade de Sá da Bandeira era a capital do antigo distrito da Huíla e hoje, com o nome de Lubango, é a sede do município com igual nome e capital da província da Huíla.

Filho de João Rodrigues Panasco – o tal que ainda criança foi da Madeira onde nasceu no Funchal em 1877, acompanhando a mãe e mais 4 irmãos, como já se referiu - também conhecido apenas por João Rodrigues, ou João Panasco, agricultor, falecido na Huíla em 12.Dez.1943, aos 66 anos, onde está sepultado, e de Maria José Rodrigues, como se indicou atrás, nascida na povoação da Huíla em 31.Julho.1887, costureira, arte que aprendera com seu pai, e falecida em Caluquembe em Maio.1972, aos 84 anos, em cujo cemitério repousa. Neto paterno pois de Manuel Rodrigues Panasco e de Maria Gonçalves Panasco e neto materno de Baltazar Rodrigues e de Delfina de Jesus, também já referidos.

 

 

1Estudantes da Missão da Huila

 

 

Registou-se apenas em 27.7.1962 na Delegação de Caconda da Repartição do Registo Civil sob o nº 161. Fez a instrução primária na escola da Missão Católica da Huíla tendo sido seu professor um rigoroso Irmão Meneses. Não fez serviço militar.

1º Emprego – Lubango e saída

Aos 11 ou 12 anos de idade, isto é, por volta de 1916, demandou a ainda Vila do Lubango para um primeiro emprego no comerciante Manuel Ricardo, emprego de sol a sol como ele dizia, como empregado de comércio. Consta, ou diz-se que, seduzido por mulher casada, receou vinganças passionais imprevisíveis caso houvesse descoberta dessa relação - que “ele nos perdoe...” se estamos a revelar segredos inconfessáveis - e aos 15/16 anos “emigrou” para Caluquembe – localidade inserida a partir de certa altura no antigo distrito, hoje província da Huíla - e situada a cerca de 200 km a Norte da cidade do Lubango, ex-Sá da Bandeira, e a outro tanto do Huambo, ex-Nova Lisboa. Calculamos que aquela mudança ocorreu por volta de 1920 ou 21, viajando, não se sabe em que meio de transporte, na companhia de um homem branco de nome Manuel Galo (de quem deriva um sítio que nesta vila de Caluquembe se chama “Tchicondombolo” que quer dizer mesmo “galo” em umbundo, o dialecto da zona). Caluquembe era sede dum posto administrativo, integrado no concelho de Caconda, mas em 1965 foi elevado à categoria de concelho também.

Os primeiros tempos em Caluquembe

Começou por ser “funante”, termo que quer dizer vendedor ambulante e que mais tarde, se tornou ilegal para protecção dos comerciantes estabelecidos. Vendia bugigangas e outros diversos artigos. Depois tornou-se agricultor em terrenos propriedade de Manuel Jesus. Contava também que por essa época fazia as suas deslocações a pé ou talvez a boi-cavalo ou a cavalo.

Solteiro e rapaz, era quase inevitável o que em Angola frequentemente acontecia antes dos casamentos: foi pai de um filho em 1923, tinha ele apenas 18 anos, que se chamou António, cuja mãe de nome Mumbanda era filha de um negro de nome Cachar, oriundo do Sul de Angola. Passou a viver consigo a partir dos 8 anos, mais ou menos, isto é, desde o 1º casamento, mas um ralhete talvez exagerado, quem sabe, fizeram com que António ficasse sentido e em 1941 fosse para terras de Benguela, onde praticamente sempre viveu, até aos 60 anos, quando faleceu em 1982, perdendo-se assim infelizmente o contacto próximo com o pai e meios-irmãos; todavia nos anos 70 ainda morou algum tempo em Caluquembe, mesmo até um pouco depois da independência (1975) em casa de seu tio Jorge e da meia-irmã Lucília mas acabando por regressar a Benguela.

Com um guarda-livros de nome Valdez, José Maria aprendeu contabilidade no tempo em que se escrevia manuscritamente em livros e se exigia boa letra. Dotado de uma rara e primorosa caligrafia que aperfeiçoou com brio, não lhe foi difícil efectuar escritas contabilísticas e deslocou-se para a Chicuma ou Ganda, município do distrito (hoje província) de Benguela, onde trabalhou para Gouveia Mendes & Cª. Foi aí que provavelmente conheceu Valentim Reis que trabalhava para essa mesma firma e de quem viria a ser cunhado quando veio a casar com sua única irmã, solteira, como à frente se descreve.

Em virtude da sua vida em contacto com a população sobretudo quando foi agricultor, fotógrafo e mais tarde comerciante, aprendeu e falava bem o dialecto da região de Caconda/Caluquembe: umbundo (etnia ovimbundu).

1º Casamento

José Maria, casou com Maria dos Mártires Reis, familiarmente chamada de Marquinhas, essa jovem rapariga de 25 anos, ida em 1930 de Portugal – Olhão onde nasceu em 17.Dez.1905 (por curiosidade, no mesmo ano que José Maria), acompanhando a família constituída por sua mãe, viúva, Maria da Conceição Santos (50 anos), seu irmão Joaquim Filipe Simplício Reis (15) e sua cunhada Maria do Carmo Silva (22), esta com o seu bebé Valentim Reis Júnior, por todos terem sido chamados para Angola pelo meio-irmão de Mª da Conceição que ali vivia Joaquim Luís Rascão e por Valentim Amador Reis; este era irmão da Maria dos Mártires e do Joaquim, e marido da Maria do Carmo, portanto pai do Valentim Jr., e já havia emigrado para Angola um ano antes, ou seja, em 1929 aos 20 anos de idade. Todos idos de Olhão, vila, hoje cidade da Restauração, no Algarve. Assinale-se que a mãe, Mª da Conceição, futura sogra de José Maria, era contra o casamento da filha com ele, mas mesmo assim o matrimónio realizou-se primeiro pelo civil e depois na Missão Católica de Caconda sendo celebrado pelo célebre missionário alsaciano padre Camilo Lagel.

 

 

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Quanto aos padrinhos fizemos esforços para saber quem foram mas não conseguimos pois talvez ninguém saiba já.

Após casarem-se, e em Caluquembe – quer nas proximidades quer mesmo na povoação - José Maria viveu com a família em quatro casas diferentes. Primeiro, no Cuílo onde nasceram dois filhos, Camilo e Lucília e onde foi agricultor de trigo; porém, as pragas de gafanhotos que rezam as crónicas “tapavam o sol...” quando sobrevoavam e aterravam nas searas, devorando-as e lançando muitas vezes na miséria os seus proprietários, num tempo sem seguros de colheitas, apoios, etc., criaram-lhe grandes dificuldades. Depois mudaram para a Etonga onde nasceu outro filho, Edmundo; a seguir residiram na Cacomba e depois em Caluquembe propriamente dito numa casa na parte alta da povoação onde mais tarde morariam Carlos Maria de Freitas e outros mas por fim, até à chamada “descolonização”, Saul T. Ferreira, casa essa onde nasceu José Amador.  Dali mudaram-se para Caconda.

 

imageMissiva de Maria dos Mártires (1935/1936) 

 

Fatidicamente Maria dos Mártires faleceria nova, em 1937, prestes a fazer 32 anos apenas e com poucos anos de casada, no hospital missionário dos adventistas do 7º dia, no Bongo, distrito/província do Huambo, onde procurara cura já na fase final de uma difícil quinta gravidez, hospital esse dirigido pelo médico missionário americano Dr. Roy B. Parsons, que haveria de ser famoso, mas cuja inexperiência na altura por recente formação foram insuficientes para salvá-la, vítima de imparável hemorragia, deixando quatro filhos órfãos: Maria Lucília, nascida em 1932 no Cuílo, que vive hoje no Miratejo e que em Angola e mesmo em Portugal foi comerciante; Camilo, nascido em 1934 também no Cuílo e que em Caluquembe foi primeiramente empregado do pai, depois ele próprio comerciante por conta própria, sendo actualmente colaborador de seu filho Carlos numa editora de revistas em S. Paulo - Brasil aonde reside; Edmundo (Mundo), nascido em 1935 na Etonga, o qual foi empregado de escritório e contabilista sucessivamente de diversas empresas em Angola e é hoje responsável por uma empresa comercial em Luanda onde continua a morar e José Amador (Zeca como o pai, ou Zequinha), nascido em 1936 já mesmo na povoação de Caluquembe, que em Angola foi empregado e motorista do pai, funcionário da Junta Local de Caluquembe e depois bancário, profissão que continuou em Portugal até à sua reforma há anos, residindo no Miratejo. Todos foram e são apelidados de Reis Rodrigues.

 

 

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Assim, quando a mãe faleceu, eles tinham respectivamente 1, 2, 3 e 5 anos de idade; contava José Maria a comoção e dor que foi ter de velar seu corpo na primeira noite com a sogra e a filha Lucília no próprio hospital, as quais entretanto foram para ali levadas dado o infausto acontecimento, pois só no dia seguinte o corpo pôde ser transportado para Caconda onde está sepultada. Revelava também, como podemos imaginar, os tempos emocional e afectivamente difíceis e tristes que se seguiram dado o lugar deixado vazio. Talvez derivasse disso um seu especial carinho por uma reprodução duma pintura de autor desconhecido, vinda de Angola a qual ainda hoje perdura no quarto de sua viúva Irene em Sesimbra, exactamente mostrando uma família europeia incompleta e triste, pai e filhos menores tomando uma refeição com um lugar vazio à mesa...chamado “Une place vide” (traduzido do francês, “Um lugar vazio”).

Viuvez e primeira visita à terra

À altura desse doloroso acontecimento José Maria morava pois em Caconda, vila antiga e histórica, sede do concelho, em casa arrendada. Mas depois regressaria, com os filhos, novamente para Caluquembe indo residir numa habitação com loja, situada na parte baixa da povoação, arrendada a Cipriano Marques Godinho, um beirão tornado seu amigo que naquela localidade chegou a ser funcionário da Junta de Exportação dos Cereais como capataz do seu armazém de distribuição de sementes. No comércio trabalharam a sogra Maria da Conceição – visto que esta passado algum tempo após o falecimento de sua filha Maria dos Mártires fora viver com o genro e netos - assim como o filho extra-matrimonial António, que dessa forma os dois asseguravam o negócio enquanto José Maria se deslocava para a Ganda na sua actividade de contabilista e talvez também de fotógrafo. Lucília, Camilo, Mundo e Zequinha, então órfãos de mãe, passaram pois a ser co-criados pela avó materna, Maria da Conceição. José Maria entretanto começara a construção de uma casa própria ali defronte com loja integrada para onde foi habitar e comerciar a partir de Abril de 1942, casado em segundas núpcias com Irene há poucos meses, ocasião em que a sogra Maria da Conceição, visto esse 2º casamento, tomou a decisão de regressar imediatamente a Caconda onde foi viver com o filho Valentim. A casa viria a ser gradualmente ampliada com novo estabelecimento, armazéns, horta, pomar e criação de aves domésticas, etc. constituindo assim um médio complexo de construções que ainda hoje existe, embora bastante degradado e devassado por via da guerra civil do pós-independência de Angola, como por exemplo parede da loja sem reboco, cobertura tosca e portas entaipadas, um muro derrubado, alguns tectos dos armazéns semi-destruídos, etc., isso constatado por recente testemunho ocular de familiar que lá se deslocou e tal registou em vídeo. De recordar – avançando um pouco no tempo desta memória - que quando no leito de morte no Lubango, em Setembro de 1975, lhe foi dito que sua casa havia sido já ocupada por um dos movimentos emancipalistas de Angola, ele, entristecido e amargurado, exclamou mais ou menos “como era possível que uma casa que construíra tijolo a tijolo, dobradiça a dobradiça, com tanto carinho e sacrifício financeiro, pudesse ser assim assaltada e usurpada!”! Bem pior aconteceu depois como descrevemos. Desconhece-se quem são os actuais proprietários após as nacionalizações decretadas depois da independência e subsequentes vendas.

 

 

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Recuando ao passado mais longínquo: José Maria após 16 ou 17 longos anos, como calculamos, de ausência da casa paterna, pensamos que já era viúvo então – e por isso enquadramos neste capítulo - durante os quais, a mãe, Maria José, rezou um terço diariamente por ele, que contudo manteve correspondência com ela e com o pai, o Zeca, voltou de visita breve pela primeira vez à família e à sua terra natal, a povoação da Huíla. Era talvez 1937 e, segundo relato do irmão Jorge, foi emocionante o reencontro com a mãe, pai e irmãos: quando chegou, sendo já noite, a mãe, segurando um candeeiro a petróleo, alumiava incrédula o rosto do filho questionando se seria ele mesmo... E levou prendas para todos os irmãos. De notar que naquele longo interregno alguns dos irmãos (Georgina, Sabino, João, este por duas vezes, e Clara) foram visitá-lo a Caluquembe. De observar que dos 11 irmãos, alguns mal se lembrariam dele e outros nem sequer o conheciam, conhecimento que só se deu com aquelas visitas, já que era ainda adolescente quando foi para o Lubango, e depois para Caluquembe, e realmente uns eram ainda crianças ou adolescentes e outros nasceram depois, sendo que a diferença de idades era assinalável nalguns dos irmãos bastando indicar que do mais velho, José Maria, até o mais novo, Jorge, distam 25 anos! Outra nota: a mãe Maria José e sua nora Marquinhas nunca chegaram a conhecer-se pois naquele tempo as viagens eram difíceis e às vezes inacessíveis!

 

 

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Então viúvo durante quatro anos, de 1937 a 1941, facilmente se relacionou com duas mulheres que lhe deram mais dois filhos: Filipe e Maria. O primeiro que quando morreu era empregado comercial na Chirunda, cercanias de Caluquembe, faleceu violentamente quando seguia de moto e chocou com um pequeno camião ali mesmo em Caluquembe, na década de 60; o pai, José Maria, embora infelizmente não mantivessem relações, compareceu como é natural no velório e conjuntamente com seu irmão Jorge, portanto tio do falecido, providenciaram o seu funeral. Repousa no cemitério de Caluquembe com campa mandada fazer pelos mesmos. Dela, da Maria, filha de Marta, não se conhece o paradeiro há muito, sabendo-se que foi “amigada” (que quer dizer “viver em companhia marital de...”) com António Godinho; teve 3 filhos e uma chamava-se Rita.

Casa própria e 2º Casamento

Em Caluquembe vivia Carlos Maria de Freitas com sua irmã Isaura F. Lucas numa casa onde já morara José Maria, precisamente naquela onde José Amador, Zequinha, nasceu, como referenciámos atrás. Ora, aqueles dois irmãos eram primos direitos de Irene da Conceição, natural do Lubango, que fora ali passar uns tempos de férias; nascida em 29.Maio.1911, filha do 1º sargento Alfredo Carlos da Conceição, beirão, na altura já reformado e de Teresa de Jesus Freitas da Conceição, natural da Madeira, já falecida na época. José Maria conheceu-a pois Irene deslocava-se de vez em quando durante essa estada a sua casa para fazer companhia ao tio Fernando de Freitas, amigo de José Maria, e casado em segundas núpcias com Conceição Quental, assim o visitando para ouvirem as notícias na rádio, já que ter rádio era uma raridade que José Maria possuía e decorria a 2ª guerra mundial. Aquele tio de Irene também vivia em Caluquembe onde era proprietário duma oficina de carroças e carros “boers” sendo estes grandes e pesados carros de transporte de haveres e mercadorias de quatro rodas puxados por dez juntas de bois que fizeram história e os “boers” ou “Africanderes” eram a minoria branca de origem holandesa muito espalhada pelo Sul de África. José Maria por sua vez visitava também Irene na tal casa dos primos dela, Carlos M. e Isaura de Freitas, e então escreveu-lhe, como se usava ainda na época de 40, propondo namorarem e casarem; seu tio acima citado aconselhou-a a aceitar a proposta dadas as qualidades de José Maria e assim houve o pedido formal ao pai (Alfredo) e madrasta (Gertrudes) de Irene; namoraram pouco tempo, e o casamento veio a celebrar-se catolicamente no Lubango, por procuração – esta por opção de José Maria - em 17.Dez.1941, tinha a noiva 30 anos e José Maria 36; foi seu representante o irmão da noiva António da Conceição, falecido em 2004, e celebrante o ainda jovem na altura Padre A. Moreira, já falecido, tendo havido um copo-de-água em casa do pai de Irene com a presença apenas de seus familiares próximos. Quanto aos padrinhos, quer dele, quer dela, não foi possível apurar quem foram pois os contemporâneos já não se lembram ou avançam com nomes contraditórios.

 

 

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José Maria foi pois pai de 9 filhos: 3 extra-matrimoniais e 6 dos dois casamentos. Dos extra-matrimoniais, na altura que esta recordação é escrita, já faleceram dois – Filipe e António - não se sabendo nada de Maria, como já se escreveu anteriormente; os nascidos dos dois casamentos são 6, ainda vivos felizmente. O pai, quis dar-lhes os estudos possíveis e não se poupou a esforços para os mandar estudar no Colégio de Doroteias Paula Frassineti (a Lucília), no Liceu Diogo Cão (os 5 rapazes), na Escola Comercial (o Edmundo) todos estes estabelecimentos na ex-Sá da Bandeira, e na Escola de Regentes Agrícolas do Tchivinguiro (o Júlio) bem como no Curso de Agronomia em Luanda primeiro e depois apoiando-o no de Medicina Veterinária em Nova Lisboa, localidades essas distantes de Caluquembe pelo que não era muito acessível aos rapazes do interior estudarem para além da instrução primária, mas que àqueles lhes foi proporcionado pelo pai avançarem mais. Aconselhado por um professor da escola primária local, Joaquim da Costa Gomes, exímio pedagogo e músico, também lhes estimulou a aprendizagem de música com este, mas não só, embora com pouco êxito, o que tanto o desgostava também. Chegou mesmo a adquirir, ou a apoiar a compra, de diversos instrumentos musicais para os filhos, nomeadamente piano, bandolim, violino, “viola”, acordeão, saxofone e trompete (este ainda hoje está na posse de seu filho Júlio). É curioso referir que quem lhe comprou depois o piano, a crédito, nunca mais o pagou... De notar ainda que era rigoroso e educador austero, fazendo-o sem dúvida com o propósito de preparar bem os filhos para a vida, naturalmente. E dum modo geral tinha um perfil por vezes impulsivo, mas sensível, e embora não o demonstrasse era emotivo; também era expansivo nas alegrias.

A residência por si construída – a tal que já referimos estar actualmente em mau estado - era a primeira à esquerda em Caluquembe, na estrada Huambo para o Lubango, ou seja, no sentido de Norte para Sul e foi inaugurada em 1942.

 

 

 

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Era (é ?) constituída por 5 divisões: uma delas, a maior começou por ser a loja mas mais tarde transformada em sala de visitas quando o estabelecimento comercial foi transferido para nova construção separada; três quartos e sala de jantar; cozinha; varandas; largo quintal e jardim. Atrás, um conjunto de quatro anexos que eram: a grande despensa; a casa da lavadeira para passar a ferro, já que a roupa era lavada no rio Sandula a centenas de metros da residência e depois num aproveitado tanque de água quente que refrigerava a motor da moagem; um quarto de estar e o quarto de hóspedes que já fora “câmara escura” quando José Maria se dedicara à fotografia, como relatamos noutro local. E ainda havia um outro anexo mais distante que também servira de quarto dos rapazes mais velhos, depois de quarto de hóspedes e por fim ficou adstrito à loja como escritório. A casa de banho completa, e fossa, foi construída uns anos depois da parte principal da habitação, deixando então de se usar a casinha como era comum, um tanto distanciada, ao fundo do grande quintal que era a “retrete”. A hospitalidade era uma característica da casa de José Maria: familiares, amigos, caixeiros-viajantes ou circunstancialmente passantes eram convidados para almoçar, jantar, pernoitar ou até se hospedarem durante algum tempo por motivos profissionais ou para assistirem a festas, bailes ou filmes, em Caluquembe ou para passarem o Natal, Ano Novo, Páscoa, etc. Queremos recordar que o irmão Vitorino e cunhada Madalena enquanto residiram no Qué, o primo António Rosa Rodrigues (do Chinuangolo) e José Carvalho (do Calépi), amigo considerado como familiar, em sua casa passavam invariavelmente os fins-de-semana ou outras estadas.

Juntamente com Irene, criaram ainda três meninas: Maria, cujo paradeiro se desconhece; Joana Caetana (Miratejo) e a neta, filha do Júlio, Graça Maria (Torre da Marinha). Também o neto Carlos (Carlitos, hoje em S.Paulo-Brasil), filho do Camilo, esteve cerca de um ano em menino vivendo com o avô e naturalmente com Irene.

Foram empregados domésticos, “criados” como se dizia, por tempo considerável, alguns por décadas: João Canjongo; António Angolar e Alfredo Moisés Capôco. Como cozinheiros destacamos igualmente Cacintura, Manuel Rodrigues da Costa e Chiquaquiri; Manuel deixaria de ser cozinheiro e viria a ser alfaiate de apoio ao estabelecimento comercial. Seria imperdoável não citar a lavadeira de várias décadas Micaela.

VIDA COMERCIAL, INDUSTRIAL E AGRÍCOLA. VIATURAS E PATRIMÓNIO

Embora não se consiga situar em que altura certa, mas mais ou menos nos finais dos anos 20 ou anos 30, José Maria teve uma loja em sociedade com seus primos direitos António e João Rosa Rodrigues, filhos de seu tio Manuel, na Cacomba, arredores de Caluquembe, mas ele estava praticamente ausente da mesma, já que talvez estivesse ocupado noutra localidade em actividades de escritas e fotografia, presume-se, pelo que a loja estava entregue àqueles. Mas esta foi mal gerida e ao regressar, verificada a situação, a sociedade foi desfeita.

No princípio (anos 40) José Maria foi também criador de gado dito “indígena”. E sempre houve cães em maior ou menor número para guardarem a habitação, loja, moagem e armazéns, ajudando o guarda, ou para companhia, assim como gatos nos armazéns por razões óbvias... De referir ainda que dado o seu gosto pela arte da fotografia a ela se dedicou desde cedo como actividade subsidiária para ganho de dinheiro tirando fotos para documentos, etc. e revelando-as; e mais tarde essa paixão continuou mas já como um lazer, como se descreve à frente.

Assim, apesar de já antes haver sido comerciante, destacamos agora o estabelecimento definitivo e mais duradouro do qual foi proprietário em Caluquembe desde 1942 até 1970 (e depois passado ao filho Camilo). Era um médio estabelecimento comercial dito José M. Rodrigues - Comércio Misto – com impressos inconfundíveis onde, num arranjo gráfico, os nomes eram enquadrados por linha a grosso ladeada por duas linhas mais finas, como tentámos exemplificar na capa deste escrito (ver). O tipo de comércio era aquele onde de quase tudo se vendia, nomeadamente: panos, tecidos, roupas, bijutaria, papelaria, sapataria, mercearia, charcutaria, ferragens, louças, vidros, utilidades, bebidas, alguns medicamentos até, produtos de drogaria, materiais de construção, tintas, alfaias agrícolas (charruas, acessórios, etc.), bicicletas, livros, etc. E era agente ou representante – durante algum ou todo o tempo em que foi ali comerciante - de várias marcas ou empresas nomeadamente: Lupral, de produtos diversos de fibrocimento, charruas, correntes, pregos com comissão de 10% a conta-firme; rádios, gira-discos e outros artigos Philips, motorizadas e motos NSU, da Lusolanda; máquinas de costura Pfaff e depois Oliva; combustíveis e lubrificantes da Mobil, antes Socoony Vacuum, à consignação com pouca margem nos primeiros mas que era compensado pelo lucro nos lubrificantes; tabacos da Sital; Pneus e câmaras da Mabor, à consignação e comissão de cerca de 10% tendo sido este negócio compensador; distribuidor de farinha de trigo que era racionada pelo Estado – 5 Kg por pessoa/mês - gerando-se naturalmente conflitos, até que se instalou uma padaria em Caluquembe; Gás Quintas; etc. Chegou mesmo a ser importador pontual de alguns artigos, como calçado, chapéus, louças da Vista Alegre e vidro trabalhado de Portugal e até mesmo alguns artigos do estrangeiro. Na loja também se comprava aos agricultores – a maioria campesina negra de Angola, mas também a cidadãos brancos – diversos produtos tais como cereais (sobretudo milho e trigo), feijão, cera, tabaco, rícino, soja, café, etc. e animais como galinhas, porcos e cabritos, principalmente, assim como ovos e peles de bovino. Os produtos agrícolas guardavam-se até ao seu escoamento para as cidades em armazéns anexos à loja de maior ou menor dimensão, dois deles os menores e mais antigos chamavam-se “chilas”, destacando-se o milho como absorvido pelo respectivo grémio; os animais eram para consumo ou entrega a salsicharias no caso dos suínos. Assim, havia instalações, que eram um grande quintal – que se chamava lá em casa o “quintal das galinhas” - com capoeiras para galinhas, patos, gansos, perús e às vezes havia capotas (pintadas) bem como existia um pombal e uma arrecadação (para a salga das peles de bovino). A pocilga estava convenientemente afastada do complexo. E, como em todas as lojas do interior angolano, também muito se permutavam os bens que os clientes desejavam adquirir, tais como alimentos, vestuário, bebidas, alfaias e tudo o mais que necessitassem ou quisessem comprar, com aqueles produtos agrícolas ou animais e seus derivados. O estabelecimento também vendia por grosso ou atacado, ou seja, para revenda da mercadoria por outros comerciantes instalados em pequenas lojas em povoações comerciais menores ou mesmo isolados no dito mato. Estes comerciantes que se forneciam duma loja maior, como era o caso, eram os chamados “aviados”. Destacamos como o mais duradouro José Soares da Silva Carvalho, no Calépi, povoação a cerca de 20 Km, mas outros mais houve.

E durante anos o escritório do seu estabelecimento funcionou como posto de correios, dos CTT, sem remuneração, fazendo venda de selos, registos, recebendo e fechando malas postais de e para a Ganda (estação de que dependia), recepção e distribuição ao balcão da correspondência destinada aos habitantes e recebendo e enviando telegramas, às vezes com dificuldade, através dum grande e um tanto obsoleto aparelho a pilhas ligado à linha telefónica de 60 Km até Caconda. Claro que esse serviço público graciosamente prestado pela casa de José Maria, exigia horários restritos de atendimento que não foram fáceis de impor; sendo mais tarde foi transferido para o posto administrativo e veio mesmo a autonomizar-se uns anos depois. Nesta altura a casa de José Maria Rodrigues/Camilo Reis Rodrigues ficou com a caixa postal nº 2, já que a nº 1 era a da Câmara Municipal.

Foram seus empregados de comércio seu sobrinho Luís Teixeira Rodrigues (anos 40), seu irmão mais novo Jorge Rodrigues (de 48 a 60) que nos últimos anos de trabalho passou a guarda-livros, Armelim Tavares Coutinho (anos 50), Adorindo Luís Teixeira (idem), António Tomé, bem como seus filhos Camilo (a partir de 1955) e José Amador (a partir talvez de 60, por duas vezes e por alguns anos). Dezenas de trabalhadores serventuários sucessivamente trabalharam no comércio indirectamente, na limpeza e ensacamento de cereais, na moagem (à frente descrita), nos camiões como ajudantes ou nas cargas e descargas, na horta e pomar, como guardas, etc. E em apoio da loja para costura de panos para as mulheres ou de outro vestuário para homens, havia alfaiates em número de dois por norma além dos seus ajudantes. A partir de 1963, por motivos de segurança comercial dada a má gestão da empresa Sulanda – de que era sócio na cidade de Sá da Bandeira - o estabelecimento mudou, embora formalmente apenas, de nome para o de seu filho varão mais velho do 1º casamento, que trabalhava consigo há 15 anos, Camilo Reis Rodrigues, e em 1970 este ficou de facto sozinho, como arrendatário de todo o complexo predial e tomando o negócio por trespasse, dando assim continuidade à grandeza daquele estabelecimento comercial. José Maria mudou-se então para Sá da Bandeira onde trabalhara menino e moço, como relatámos antes.

 

 

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Venda de cereais junto a loja de Jose Maria Rodrigues

 

Centrando-nos de novo em Caluquembe: no terreno envolvente das construções, o que em Portugal se chamaria de quinta, com cerca de 2 hectares em rectângulo, limitados por frondosa e alta sebe de espinheira inultrapassável e por uma barreira de eucaliptos, produziam árvores de fruto diversas, culturas hortícolas para consumo da casa e uma pequena plantação de café arábica. Um granjeiro era o responsável principal dessa produção horto-frutícola, que possuía cacimba (poço), rega, bomba manual de grande roda a manivela que abastecia um relativamente grande depósito cúbico elevado. Para servir a residência, e depois a loja também, instalou nos anos 50 duas enormes baterias, elementos de submarino, que alternavam com um gerador de 110 Volts a gasolina para fornecerem luz eléctrica privada, bem antes de Caluquembe passar a ter energia pública, dando por fim ao uso de candeeiros a petróleo: os ditos coloniais e outros de pé alto, ambos de torcida, um recordado candeeiro Coleman de duas camisas e talvez algum Petromax – estes dois do tipo de pressão bombeada - e um silencioso Aladin embora também com camisa.

Algo que muito justificadamente honrava José Maria era ser ou ter sido correspondente do Banco de Angola, o banco emissor da então província ultramarina, qualidade para que era exigido seriedade, exemplaridade comercial e grande responsabilidade pois eram delegadas nos correspondentes algumas operações bancárias nomeadamente cobrança de letras entre outras, sendo fiel depositário de valores apreciáveis. Estava ligado à agência da Ganda (então vila, e depois cidade, de Mariano Machado).

Nos anos 50 construiu e instalou uma moagem a martelos para milho movida por motor diesel de marca Lister. Simultaneamente o motor accionava dois dínamos, um para carregar baterias que também eram na altura a fonte de energia dos rádios, antes do advento das grandes pilhas-secas e dos rádios transitorizados de pequenas pilhas, e o outro dínamo para carregar as grandes baterias, as tais de submarino, fornecedoras de luz eléctrica à residência. E desde os anos 40 foi possuindo camiões, ou “camionetes” (como lá se dizia), primeiro uma International (marca americana pois americanos eram a maioria dos veículos automóveis em Angola na época) K 7 e depois uma de maior tonelagem, K 11, ambas a gasolina pelo que podemos imaginar o respectivo consumo... Mais tarde comprou uma das primeiras aparecidas por ali movida a gasóleo, dito na época a “óleos pesados”, Magirus Deutz a qual acabaria despenhando-se, sem vítimas, numa serra algures perto de Benguela por falta de travões; posteriormente uma Mercedes Benz (havendo um filme de 8 mm com cenas registadas na serra de Quilengues aquando da sua viagem “inaugural” em 1958 talvez, de Benguela, onde fora comprada, para Caluquembe) e por último, no final da década de 60, uma Bedford. Antes desta, o filho Camilo comprara, por altura da sua 1ª viagem a Portugal, 63 / 64, uma usada de marca Austin. Infelizmente nenhuma dessas 5 ou 6 “camionetes” deram boas provas por este ou por aquele motivo técnico grave, pelo que tomou aversão a esta categoria de viaturas! Como “chauffeurs” (motoristas) trabalharam por tempo assinalável: primeiramente, seu irmão Emídio, mais tarde Henrique Paulo Lino e finalmente seu filho José Amador. Como automóveis ligeiros, começou por possuir um carrito de 3 rodas vendido pelo seu amigo Padre C. Lagel mas que era inadaptado às estradas e picadas angolanas, de terra, depois já nos finais dos anos 40 uma carrinha de caixa metálica aberta Dodge vermelha e preta e a seguir uma do mesmo tipo Chevrolet 3100, azul, nova, em troca imediata e negociada duma pequena carrinha fechada Austin que lhe saíu no sorteio anual do Rádio Clube de Benguela mas que seria inadaptada às estradas do interior. Após alguns anos enveredou por umas das primeiras stations wagons (carrinhas fechadas) que apareceram no mercado, uma Ford V8 (1952 ou 3) de 8 lugares de cor vermelha, de grande consumo, e mais tarde um turismo Mercedes Benz 190, preto (1958), ambos a gasolina e adquiridos novos também. Isso em Caluquembe.

José Maria dactilografava razoavelmente.

 

 

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Em 1970 optou para se mudar para a então Sá da Bandeira, como já se abordou atrás, onde foi assumir o lugar de sócio-gerente, substituindo Joaquim Silva, da empresa Emacol, de materiais de construção, a qual sucedeu a uma primordialmente do mesmo ramo designada Sulanda, criada em 1956, que por sua vez sucedera à primeira firma a que se associara no início da década de 50: Pedrosa & Cª, Ldª.

 

 

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Essas moradias, situadas no Bairro da Laje ou Presidente Camisão, foram nacionalizadas após a independência de Angola e depois vendidas a particulares pelo Estado. Também adquiriu várias parcelas de terrenos e julgamos que uma pequena habitação à madrasta (Gertrudes) de Irene e a alguns irmãos desta, herdados do pai deles, Alfredo Carlos da Conceição, e dos respectivos avós maternos, mas tudo se perdeu... O mesmo aconteceu com a Emacol que provavelmente terá encerrado na efervescência da conturbada independência de Angola. Só algum dinheiro que José Maria deixou no exterior foi partilhado na ocasião própria pela viúva e filhos. Alguns móveis e recheio da casa vieram com aquela para Portugal.

Possuía a carta de condução desde 2.12.1929 de automóveis ligeiros e de pesados nº RV - 1062 / 3ª, esta passada em Sá da Bandeira (Lubango) que estava revalidada até 1977. Mas também conduziu motos noutros tempos, assim como camiões antes de ter motoristas.

Teve um acidente de camião antes de ter carros próprios.

Finalizando este capítulo, registe-se que proporcionou a “emigração” da povoação da Huíla para Caluquembe de três irmãos: Vitorino (por volta de 1940), Emídio e Jorge (estes dois em 1948); e um sobrinho, o Luís R. Teixeira (uns anos antes destes dois), já falecido no Brasil há anos.

PARTICIPAÇÃO NA VIDA ASSOCIATIVA, CULTURAL, POLÍTICA, RELIGIOSA E SOCIAL EM CALUQUEMBE E NOUTROS LOCAIS

A autarquia básica em Angola era a junta local (o equivalente em Portugal mais ou menos à junta de freguesia); assim foi vogal da Junta Local de Caluquembe por diversas vezes. O presidente era sempre por acumulação o chefe de posto administrativo, ou mais tarde administrador de posto como se passou a designar nos anos 60, pelo que comerciantes sobretudo eram os vogais. Posteriormente, com elevação de Caluquembe (1965) a concelho, a junta local foi directamente elevada à categoria de câmara municipal, isto é, sem passar pelo grau intermédio de comissão municipal. Foi então também vereador da Câmara Municipal de Caluquembe e pelo menos, por uma vez e por pouco tempo substituiu o presidente na ausência deste.

No que respeita à vida associativa, desde cedo, anos quarenta, foi co-organizador de várias festas anuais de Caluquembe, efeméride muito vulgar no centro e Sul de Angola nas vilas e povoações mais importantes, com baile abrilhantado por aparelhagem ou por conjunto musical, quermesse, comes e bebes, futebol, torneios de tiro ao alvo, aos pratos e/ou aos pombos, etc. Aliás, ele também atirava nestas três modalidades chegando a ganhar taça(s). Constituído o Clube Recreativo e Beneficente de Caluquembe (este foi o nome mais usado, embora nunca tivesse estatutos oficialmente aprovados mas funcionou durante décadas!), foi seu presidente da direcção e até da assembleia geral. Foi sócio do Automóvel e Touring Club de Angola – ATCA, desde os anos 60 com o nº 6439 com extensão de benefícios ao Automóvel Clube de Portugal – ACP, do qual também possuía cartão de identidade; sócio-correspondente, nº 1716, do Clube Filatélico de Portugal, Lisboa; e assinante de diversas revistas (Coletânea, Selecções do Reader’s Digest, Flama, Mensário Administrativo e talvez outras) e de jornais (Jornal da Huíla, O Lobito e outros), recebia livros regularmente pelo correio, solicitados a editoras portuguesas.

Politicamente era atento e interessado, e bastante crítico em relação às injustiças, ao que achava mal na administração, e grande defensor da maioria negra. E como falava com erudição, lia muito toda a espécie de literatura de ficção ou histórica, revistas e jornais, consultava enciclopédia, trocava impressões, ouvia, etc. – isso dava-lhe invulgar cultura – e como escrevia bem igualmente, tentando fazê-lo com a máxima correcção, pois era um purista da língua portuguesa, sendo bom conversador era ouvido como interlocutor válido de outros comerciantes, autoridades administrativas, padres (nomeadamente os saletinos de nacionalidade suíça) e religiosas das missões católicas do Cola (a cerca de 30 Km de Caluquembe) e de Caluquembe, de missionários evangélicos, na maioria suíços também, da Missão Evangélica Filafricana de Caluquembe e outros; com todos mantinha relações comerciais e sociais, apoiando as Missões com créditos concedidos à aquisição de muitos artigos e materiais para as mesmas, mas sobretudo relações cordiais e de amizade, naturalmente maior ou menor, e mútuo respeito. Foi circunstancialmente membro do partido único, a União Nacional, o que não o inibia de ser um analisador atento e firme da administração apontando os erros que esta cometia e tantos eram. Fez parte da recepção ao Presidente da República Portuguesa em sua visita a Caconda, Colonato Agrícola, em 1954, o General Craveiro Lopes. Numa visita do Governador do Distrito da Huíla Hortênsio de Sousa, ainda nos anos 50, foi um dos oradores na sessão solene de recepção – o que ficou parcialmente registado em filme de 8 mm - realizada na escola primária de Caluquembe (a nº 45, de Paiva Couceiro), onde, assinale-se, os seus filhos estudaram; participou também na recepção na visita do Governador-Geral de Angola, Sá Viana Rebelo, a Caluquembe no final da década de 50 ou princípios dos anos 60.

Católico embora não praticante pois frequentava a igreja maioritariamente em dias solenes. Relacionava-se bem – como já se apontou - com missionários, pastores e crentes de outras igrejas nomeadamente da Missão Evangélica Filafricana (sede em Caluquembe) e da Missão Adventista do 7º Dia do Bongo (Huambo), chegando mesmo a assistir, mediante convite, a cultos especiais evangélicos como o do Natal e alguns outros.

Quando completou 50 anos – 11.1.1955 - foi-lhe organizada uma festa de aniversário surpresa. Irene, cunhada Madalena e irmão Vitorino tiveram naturalmente dificuldade em manter o segredo nos dias anteriores de preparação dum evento deste tipo, já que a festa decorreu na sala de visitas da residência em Caluquembe. Foi interessante e memorável, havendo sido convidados muitos familiares e amigos.

Foi padrinho de baptismo de muitos bebés e até mesmo de adolescentes, assim como padrinho de casamento de vários noivos ou noivas, conjuntamente com a primeira mulher, Maria do Mártires, primeiramente, a seguir e nalguns casos com a sogra Mª da Conceição uma vez que já era viúvo, e depois com a segunda mulher Irene em muitos dos que se citam de seguida. Mesmo sob pena de falharem vários nomes que a memória ou o desconhecimento não permitem registar, citamos de seguida alguns dos afilhados (escrevendo-se entre parêntesis onde moram actualmente e outras indicações quando se sabem). De baptizado: Abel Andrade (falecido); Abílio Frederico Tyller (Angola); Amador Cristiano Reis (sobrinho, falecido); Arminda Santos (Portugal); Augusta Gaspar Reis (Loulé); Berta Silva Reis (sobrinha, Olhão); Clarisse Rascão Silva (recentemente falecida em Olhão); Edite Perestrelo; Filho de Seirós (nada se sabendo dele); Graça Maria Reis Rodrigues (Gracinha, neta, filha da Lucília e do Jorge, Miratejo); Irene Caires Rodrigues (Nita, neta, filha do Camilo, S.Paulo-Brasil); Joana Caetana (por si criada, Miratejo); Maria (por si criada, nada se sabendo dela); Sérgio Esteves Correia (Lubango-Angola); dois Filhos dum enfermeiro público de Caluquembe nos anos 60 cujo nome esquecemos. De casamento: Cecília Dias (professora, falecida, casada com Cesário); Elsa Baptista Mendonça (Portugal); Esposa do enfermeiro público de Caluquembe acima indicado (não se sabendo do paradeiro); Fernando Rodrigues (sobrinho, Braga); José Godinho (era casado com Elvira Godinho e falecido no Brasil); Luísa Silva Andrade (casada com Armando Baptista, Quinta do Conde); Lurdes Silva (Portugal, casada com Vítor); Minela Lucas Vieira; Nelma Rodrigues Guerra (sobrinha, casada com Cândido Fernandes, Braga). De baptismo e também de casamento: Cristina Silva Reis (Sobrinha, casada com António Silva, Olhão); Isabel Silva Andrade (Casada com José Amaral falecido recentemente, Miratejo). Temos pena de não sabermos completar a lista.

VIAGENS INTERNAS E À EUROPA E SUL DE ÁFRICA.

Fazia interessantes viagens, entre outras, às cidades de Sá da Bandeira, Benguela e Lobito, em trabalho de negócios, mas também conjugando com passeio pelo que acompanhavam-no Irene e os filhos, sobretudo Lucília, até casar, e os filhos mais novos. Uma viagem assinalável foi uma ida a Luanda em finais de 1965 para passar o Natal com o filho Edmundo, nora Maria Augusta e filhos, que ali residiam, com passagem de regresso, para se conhecer, por Salazar (hoje Dalatando), Malange e Quedas do Duque de Bragança (hoje Calandula) no rio Lucala, Dondo e Cela, acompanhado de Irene, filhos Gino e Júlio e afilhada Maria.

Fez três grandes e notáveis viagens ao exterior de Angola, de férias, sempre acompanhado de Irene.

A 1ª a Portugal, aos 58 anos da idade, quando conheceu este País, em 1963/4 tendo viajado na ida e regresso no paquete “Pátria”; nesta viagem permaneceu um ano, alojado em hotéis ou pensões mas pela maior parte do tempo na Pensão Flor, na Praça João do Rio, em Lisboa; fizeram uma grande excursão de autocarro da Agência Abreu a vários países europeus. Na Suíça ainda reviu um antigo missionário evangélico que o fora em Caluquembe, Óscar Mermoud, assim como dois missionários mais recentes, os Drs. Hoffmann e esposa Elizabeth que já então haviam contudo regressado definitivamente à Suíça e com quem estiveram vários dias, hospedados na casa da mãe da Drª Elizabeth. Na longa estada em Portugal que percorreu de Norte a Sul, fez-se acompanhar de seu automóvel Mercedes com o qual lamentavelmente haviam de ter um violento e aparatoso acidente num cruzamento em Albergaria-a-Velha, chocando com um autocarro, quando seguiam conjuntamente com familiares também de férias em Portugal: Teresa e José Caires, António e Lúcia Teixeira da Conceição; felizmente sem consequências pessoais, embora pudesse ter ocasionado vítimas, mas só houve grandes danos materiais do carro. A partir daí, José Maria passou a contratar pontualmente um motorista quando queria fazer-se transportar ou viajar, e que era o próprio empregado da recepção da pensão (de nome Vítor) nas suas horas vagas ou dias de folga. Visitou também o arquipélago da Madeira viajando no navio “Funchal” e assistindo de bordo à sempre espectacular e fascinante passagem de ano.

A 2ª viagem foi ao Sudoeste Africano (hoje Namíbia), à África do Sul e a Lourenço Marques, actual Maputo, capital de Moçambique, em 1970, de carro em conjunto com alguns alemães amigos que viviam não muito longe de Caluquembe: família Hey e família Vöigth que constituíram assim uma caravana de automóveis. Porém, o trajecto de Joanesburgo a Lourenço Marques e regresso foi de avião. A concepção da viagem aconteceu muito tempo antes, por volta de 1950, ao subscrever um seguro de vida por 20 anos, com esse propósito, na seguradora “Life”, com sede na África do Sul, equivalente a 50 contos. Aproveitou para fazer em Windhoek exames à garganta.

 

 

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A 3ª grande viagem foi de novo a Portugal em 1970, mas já de avião, aproveitando essas férias para efectuarem nova excursão a alguns países europeus revisitando-os. Voltaram a ficar hospedados na Pensão Flor em Lisboa e frequentaram as termas do Gerês como já haviam feito na 1ª viagem em 63/64.

PASSATEMPOS, LAZER E DIVERSÕES

Leitura

Como se escreve noutro local era um grande leitor. Permita-se-nos a expressão de que “devorava” toda a espécie de livros pelo que possuía uma biblioteca razoável, sendo que a maior parte desses livros estão na posse da viúva Irene e de seu filho Júlio, que os conseguiram trazer de Angola conjuntamente com o filho Gino.

Fotografia

No preto e branco, na chapa de vidro onde antigamente se impressionavam fotografias, depois em película de 6 x 6 ou 9 x 9 cm, muito fotografou e deixou para a posteridade largas centenas de fotos.

 

 

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Chegou mesmo a ser uma profissão subsidiária a de fotógrafo na década de 30 / 40, fazendo revelações e ampliações até, e na habitação própria, em Caluquembe, reservou mesmo uma divisão anexa, que antes noutras casas improvisava, como “câmara escura”, nome este que perdurou mesmo depois de ter passado a ser um quarto de hóspedes... O equipamento de “laboratório” foi vendido ao Pastor Evangélico Luís Campos Aço. Possuiu, quando já só era fotógrafo amador, uma máquina de marca Zeiss Ikon de 6 x 6, ensaiando as primeiras fotos a cores, e teve a seguir outra(s) câmara(s) do novo formato de então, o de 35 mm.

Nos anos 60 sobretudo e princípios dos anos 70 dedicou-se maioritariamente aos diapositivos (“slides”) registando família, amigos, casamentos, baptizados, motivos etnográficos, paisagens, eventos, flora, etc., em Angola, em Portugal e nalguns países da Europa e ainda no então Sudoeste Africano e África do Sul, deixando um espólio total de cerca de 1400 “slides”, que inclui também algumas centenas comprados em museus e balcões turísticos, mas muitos deles infelizmente estão já bastante deteriorados por fungos...

Recordamos que quando fazia sessões familiares de projecções quer de filmes quer de “slides” dizia invariavelmente com satisfação: “ – Que bons “recuerdos” ou recordos!...”

Filatelia

Foi um grande filatelista ao longo de décadas com colecções de selos de Angola, Portugal e muitos países do Mundo. Um dia, já no início da década de 70, aborreceu-se e vendeu a colecção, coligida e organizada meticulosamente em vários álbuns, por 200 contos de Angola, colecção essa que decerto valeria várias vezes mais, mas provavelmente foi uma decisão precipitada e bem aproveitada pelo comprador...

Cinema amador

Quando em Angola o cinema amador, que era mudo, dava os primeiros passos, José Maria adquiriu em meados dos anos 50 uma máquina de filmar e outra de projectar de marca Eumig, de 8 mm, bem como o equipamento necessário tal como écran e outro, e registou para a posteridade cenas familiares, paisagens e alguns eventos. Foi melhorando e aumentando o equipamento. Evoluiu depois para um formato maior, o de 16 mm, máquina de filmar Pailhard, e em Lisboa, aquando da primeira viagem, comprou um correspondente projector usado sonoro embora pouco utilizasse essa funcionalidade uma vez que a câmara de filmar não registava som. Por aqueles tempos os filmes eram excessivamente caros e as bobines de curta duração, bem como a revelação exigia o seu envio para a Europa pelo correio registado, isto é, era caro filmar. Vendeu todo o equipamento no final da década de 60, talvez, e encerrou assim esta actividade lúdica. Restam-nos as bobines de filmes que se passaram para vídeo mas que ficaram com qualidade pouco satisfatória relativamente a alguns das bobines, sobretudo as de 16 mm.

Cinefilia

Era um cinéfilo. Em Caluquembe assistiu aos filmes que os cinemas ambulantes ali iam projectar que nos anos 40 corriam no Hotel Central de António Joaquim Ruas da Silva. Contudo, em determinada altura, José Maria cortou relações com o Clube Recreativo, onde o cinema passou a acontecer embora sempre esporadicamente, por diferendo relacionado com a sua localização na parte alta da localidade e não ao centro como se justificava e ele reivindicava (e justamente veio a acontecer anos mais tarde) deixando em consequência de ir ao cinema, bailes, festas, etc., isto é, radicalmente não mais frequentou o clube, só retomando muitos anos depois – princípios dos anos 60 - quando novos dirigentes o assumiram, nomeadamente seu irmão Jorge, e porque finalmente se planeou a sua mudança para o centro da vila, iniciando-se mesmo a sua construção.

Mas naquele interregno de “zanga” chegou a contratar por 2 ou 3 vezes o cinema ambulante para fazer projecção de filmes num dos armazéns ou garagem de camião. Uma das películas projectadas foi o célebre filme português “O Leão da Estrela” com António Silva; para estes poucos espectáculos privados convidou familiares, vizinhos e amigos que por norma não frequentavam também o clube, mas por outras razões decerto.

Enquanto esteve uma temporada na ex-Sá da Bandeira por volta de 1957, hospedado na Pousada de Turismo da Huíla, assumindo a gerência da Sulanda por motivo do sócio-gerente António Grima estar de férias em Portugal, praticamente todas as noites ia ao cinema com Irene, ao Cine-Teatro Odeon. Igualmente, quando se deslocava a qualquer outra cidade como Benguela, Nova Lisboa, etc. não deixava de ir diariamente ao cinema durante o tempo em que por lá permanecesse, a não ser por qualquer impedimento, o mesmo acontecendo nas suas duas relativamente longas permanências em Portugal. De notar que em Caluquembe a projecção de filmes era anteriormente espaçada e irregular, como já se indicou, e só a partir do final da década de 60 é que passou a ser semanal (domingo à noite). E quando foi morar definitivamente para a cidade (Sá da Bandeira) e até que as condições de instabilidade político-militar que se vivia na altura de pré-independência de Angola deixaram de permitir, o que sucedeu próximo ao seu adoecimento e falecimento, ia com bastante frequência ao cinema, sendo que o novo – Cine Arco-Íris – situava-se comodamente próximo à sua residência.

Elegeu como o melhor filme que vira e tanto o sensibilizara o ainda hoje grandioso “E Tudo o Vento Levou...”.

Outros

Desde a juventude tornou-se um auto-didacta chegando mesmo a aprender a língua francesa razoavelmente. Era um grande leitor, repete-se, o que o tornou um homem culto.

Foi caçador amador mais para obtenção de proteína animal para alimentação a partir da apreciada carne sobretudo de pequenos antílopes (bambis, etc.), num tempo em que ainda havia fauna selvagem grande e média na zona de Caluquembe, usando carabina “maneliker” e eventualmente outras. Possuiu duas armas de recreio e uma de defesa.

Gostava de dançar e fazia-o notavelmente na valsa e no tango. Melómano, ouvia largamente discos de música clássica sobretudo a partir da compra do primeiro rádio gira-discos em móvel nos anos 50, transformado para funcionar a bateria, já que não havia ainda gerador, quando apareceram os discos micro-gravados chamados “long-play” de 33 rotações por minuto. Em Portugal nas duas relativamente longas estadias assistiu a óperas, operetas e visitou exposições de pintura.

Por diversas vezes fez algumas permanências nas águas termais do Tambe a poucas dezenas de Km de Caluquembe por razões de saúde e de recreio.

Citemos algumas curiosidades de não-lazer: nunca fez praia ou piscina, julgamos mesmo que não sabia nadar. Também nunca praticou qualquer desporto não só porque uma vida de trabalho desde adolescente talvez tal não lhe proporcionasse como também porque, nos primórdios do século XX, isto é, quando era jovem, nas terras mais pequenas não haveria infra-estruturas para o desporto para além de improvisados campos de futebol, quando muito e bolas de trapos...

Amigos, conhecidos, conversados, relacionados, etc.

Seria interminável a lista. Mesmo com o risco de grande defeito, do critério adoptado poder não ter sido o melhor e o de grandes esquecimentos que as nossas memórias, o espaço relativamente pequeno que decorreu desde a ideia de escrever esta homenagem até terminá-la, tendo em conta também o desconhecimento directo de muitos e tantos, certamente, que foram seus amigos, conhecidos, conversados ou relacionados, desde a infância até à morte, não podemos deixar de enumerar algumas pessoas, as principais, que nos recordamos ou apurámos haverem estado mais próximas por qualquer tipo de relacionamentos, isto é, de amizade, sociais, comerciais, etc., com mais frequência, assiduidade ou intensidade, ainda que circunstancial ou por pouco tempo e até mesmo quando possam ter havido interrupções das mesmas relações por quaisquer motivos naturais, de afastamento geográfico, ou outros causas, positivas ou negativas, não se escrevendo obviamente os nomes da maioria dos familiares mais directos – irmãos, filhos, sobrinhos, netos, tios, primos, etc. - ou mesmo dos por afinidade – sogros, sobrinhos, primos, tios, alguns cunhados ou concunhados, etc. - por desnecessário e alguns até já haverem sido citados atrás, embora se possam repetir um ou outro. E com os familiares, como é natural, como com toda a gente, nomeadamente os que a seguir se indicam, ou que não se escrevem por desconhecimento como nos justificámos acima, dava-se melhor, no que respeita ao relacionamento social, por amizade ou de outro tipo, com uns do que com outros. E, quando se trata de casais ou famílias, maioritariamente refere-se apenas o nome do marido, não sendo preciso indicar a esposa e filhos, a não ser em certos casos. Com todas essas ressalvas, eis pois alguns nomes por ordem alfabética, citando-se a localidade quando não moraram em Caluquembe ou imediações: Abílio Augusto Correia e esposa Beatriz Tyller; Administrador de Caluquembe Matoso Pio; Administradores de Caconda José da Silva Vigário e David Campos e Secretário José Maria Pereira; Alfredo de Oliveira Tavares (desde a juventude); Alexandre Esteves Correia (compadre); Ângelo Rodrigues dos Santos (primo); António Camacho (seu procurador durante anos no Lubango); António da Conceição (cunhado, várias moradas); António dos Santos (compadre); António Duarte de Moura (da juventude); António Martins da Silva (“Mussorovera”, compadre); António Nunes da Silva (Ganda); António Pedrosa Grima (Lubango); António Pinto de Sousa (Benguela); António Rosa Rodrigues (primo); Aparício (Quilengues); Arrais (Cubal); Baltazar Gomes Sereno; Brandão (Ganda); Cândido Espinha (Lubango); Chefes de Postos de Caluquembe Costa (compadre, padrinho do filho Camilo), Manuel Coelho Graça, Manuel Antunes da Silva e Leonildo M. e esposa Adelaide Varandas; Cipriano Marques Godinho; Daniel da Conceição (cunhado, Lubango); Dionísio Peixe (concunhado, Nova Lisboa); Drs. Médicos Lennart Hoffmann-Straub e esposa Elizabeth, Rodolphe Bréchet e Roy B. Parsons (Bongo) bem como vários outros missionários evangélicos; Eibe Dittmer Hey; Engºs António Mendes da Ponte (Chicuma), António V. Seabra (Lubango), José Carvalho Fontes (Lubango) e Manuel Guerra Junqueiro; Fernando de Freitas (tio de Irene); Francisco José de Andrade (compadre); Gonçalves Farinha; Gouveia; Herculano Costa (Benguela); Jacinto Vilhena; Jerónimo Barreira (Bula); João Maria Sá Tenreiro; João Ricardo (Lubango); Joaquim Maria Monteiro; Joaquim Pereira Branco (Benguela); Joaquim Reis (cunhado, Caconda); José Caires (concunhado, Lubango e Caconda); José Fonseca Monteiro (Caconda); José Godinho (afilhado); José Soares da Silva Carvalho; José Veiga e esposa Maria de Lurdes S. Oliveira Veiga; Júlio Fonseca (Ganda); Lemos Baião (Negola); Luís Vilhena; Manuel Jesus; Manuel José Mendes (compadre, padrinho da filha Lucília) e seus pais Urbana Moura e Mendes (nutrindo por este especial admiração, Chicuma); M. Nunes de Freitas (Benguela e Lisboa); Manuel Seiça; Padres Camilo Lagel (Missão Católica de Caconda e depois em Cambinda-Huambo, que foi padrinho do filho Edmundo), Otto Balmer (este dizia que José Maria foi o seu primeiro amigo em Angola) e vários outros padres; Professor Joaquim Costa Gomes; Raul da Conceição (cunhado); Roberto Silva (um grande amigo desde a juventude, Negola); Alfredo Sá Seirós (compadre); Valentim Amador Reis (cunhado, Caconda); Vitoriano de Almeida; Wernet e esposa Carolina Vöigth (Monguavolo) e muitos outros fazendeiros alemães que constituíam a respectiva comunidade na região da Chicuma sendo esta a maior em Angola; etc., etc. As nossas repetidas desculpas pelas muitas omissões decerto, mas já acima justificadas, e igualmente por nem sempre sabermos os nomes completos.

Facto curioso, contudo, era de que, para além naturalmente dos irmãos e familiares mais próximos, tratava-se por “tu” com muito poucas pessoas. E quanto a relacionamentos de amizade ou mesmo outros, José Maria tinha um interessante desabafo quando desiludido com ingratidões ou deslealdades: “Podes fazer cem favores ou cem boas coisas a uma pessoa, mas no dia em que não lhe puderes fazer uma, só essa, a última, passa a contar para essa pessoa !...”

DOENÇA E FALECIMENTO

Começou por ser acometido por umas dores agudas ao nível do estômago que muito o faziam sofrer. Aliás, desde novo, as digestões eram por vezes difíceis: as tomas dos antigamente tão vulgares “sais-de-frutos” Eno eram uma constante. Na verdade devido às atribulações duma vida difícil desde a juventude por matos e quejandos, aliado ao fumo – que chegou em determinada altura aos quatro maços de cigarros por dia mas que estoicamente foi diminuindo, deixando mesmo de ser fumador durante os anos 60, ou seja, talvez na última década de vida ou um pouco antes - aparentemente parecia saudável mas sofria de reumatismo como crises agudas tantas vezes que o levaram ao leito e por fim, como se citou, era grandemente incomodado pelo estômago.

Com alguma debilidade já, após vários dias acamado em casa e depois de visita médica do Dr. Garcez Palha (recentemente falecido aqui em Portugal) foi mandado baixar imediatamente em ambulância à Casa de Saúde do Sindicato, no Lubango – curiosamente onde nascera dias antes, a 1 de Setembro, o filho de Júlio e Helga, seu neto Henrique, bebé que chegou a estar um pouco ao pé de si numa ou noutra ocasião nesses derradeiros dias. Confessava a Irene que ao sair de casa na maca dos bombeiros disse para consigo que jamais ali voltaria... Ficou assim internado pela 1ª vez num hospital e aquele clínico responsabilizado pela sua saúde, seu médico assistente consequentemente. Mas os dias foram passando e a fraqueza e sintomatologia aumentavam, potencializadas pelas condições psicológicas dramáticas que se adensavam com as despedidas altamente emotivas e quase diárias de familiares próximos e de amigos que iam partindo definitivamente para a África do Sul e Portugal por força das circunstâncias da instabilidade político-militar, insegurança, confrontos entre movimentos angolanos e pressões ao avizinhar-se a independência de Angola já quando as últimas forças armadas portuguesas deixavam o território, assim como pelas notícias que ouvia de violência de diversos tipos vitimizando amigos e familiares até. Entretanto, era anunciada pelo médico uma intervenção cirúrgica para breve à vesícula (?) e ao fim de 3 semanas de internamento em quarto privativo - com a companhia quase permanente dia e noite de Irene – cerca do meio dia de 26 de Setembro de 1975, 6ª feira, faleceria, causando grande consternação. Foi velado na capela anexa à Sé Catedral do Lubango e sepultado no dia seguinte com muitas presenças no chamado cemitério novo. Muitos familiares que se encontravam já em longínquas paragens do Sudoeste Africano, África do Sul, Luanda e Brasil só souberam do acontecimento tempos depois, naturalmente por via das difíceis comunicações. Não podemos deixar de escrever que aquele conhecido cirurgião eventualmente terá descurado este seu paciente pois chegou a estar três dias sem visitá-lo e sem ter havido qualquer outra visita médica alternativa, numa situação de risco como se adivinhava e perante a angústia da família que (ainda) estava no Lubango mas que nada mais podia fazer. As condições político-militares na região eram dramáticas pelo que não havia já médicos suficientes, nem meios de diagnóstico eficazes, e uma transferência para o Sudoeste Africano ou África do Sul era praticamente impossível por via terrestre assim como em alternativa para os hospitais missionários de Caluquembe ou mesmo para o da vizinha Humpata, estes também já funcionando mal, pela debilidade de José Maria que sofria dores acrescidamente e pela falta de meios aéreos para o fazer; e mesmo que se encontrasse faltaria o combustível numa terra onde quase tudo começava a escassear, sem recursos já portanto. E, com efeito, pode dizer-se que foi o “naufrágio”... de José Maria! Noutros tempos, e bastaria que tivesse adoecido uns meses antes para ainda tudo ser possível com o fim de o tentar salvar e quiçá poder ter vivido mais anos.

Na manhã do seu falecimento – que curiosamente era a véspera do dia marcado para a intervenção cirúrgica - alertado o filho Júlio pela enfermeira de serviço, sobrinha de José Maria, Cristina Teixeira da Conceição, do agravamento do seu estado de saúde pois ele estava bastante aflito e contorcendo-se, Júlio percorreu toda a cidade por todos os pontos prováveis de trabalho, residência e outros mais frequentados pelo Dr. Palha mas não o encontrou, numa tentativa desesperada de lhe pedir que acudisse ao seu pai em emergente situação na casa de saúde, a qual não tinha outro médico ali de serviço! Efectivamente, foi o enfermeiro-chefe – a meio duma manhã - que tudo tentou para o salvar mas a fatalidade aconteceria dali a pouco. Irene estava praticamente ao seu lado quando sucumbiu. Júlio escreveu por duas vezes ao Dr. Palha, revoltado, desgostoso e lamentando o curso do internamento de 3 semanas: uma carta ainda em Angola imediatamente a seguir ao óbito, mas que ele mais tarde citou que nunca a recebera embora fosse entregue em mão à empregada do seu consultório (!) e outra quando aquele médico veio para Portugal, poucos anos depois, à qual ele lhe respondeu, desculpando-se com o surgimento rápido de factores clínicos que precipitaram a morte. Mas na mente de familiares e amigos que seguiram o seu estado de saúde naquelas 3 semanas, baseados na assistência pouca assídua que lhe era dada nos últimos dias, no adiamento inexplicável duma sempre anunciada e dita necessária operação, ficou a eterna dúvida de eventual descuido embora não intencional, que a não se ter verificado evitaria por um lado o avanço do estado de debilidade física e orgânica e por outro poderia ter prolongado a sua vida por mais tempo.

De notar que entretanto em Angola inteira e no Lubango em particular se viviam momentos complicados de instabilidade mas também de envolvimento político de muitos. Garcez Palha, famoso cirurgião de reconhecidos méritos, estaria bastante engajado politicamente o que obviamente o ocupava e o absorvia, não podendo dedicar-se intensamente naquelas semanas finais próximas à independência ao seu mister como provavelmente desejaria. Ainda, uma nota: uns dias antes do falecimento, a pedido do irmão de José Maria, Emídio, o médico-missionário de Caluquembe Dr. Rodolphe Bréchet numa deslocação ocasional ao Lubango fez o favor de ir à casa de saúde visitar o seu amigo José Maria e depois de o observar confiou que, em sua opinião, face a todos os sintomas, o seu diagnóstico era de que ele padecia realmente de cancro no estômago. Contudo, na certidão de óbito consta: colelitíase (cálculos, “pedras” na vesícula) e colecistite (inflamação da vesícula)! Repousa no cemitério do Lubango em campa conservada e mandada fazer em 1976 por sua sobrinha Maria de Lurdes Teixeira Rodrigues, a quem se deve essa grande e inesquecível dedicação. Recentemente, em Janeiro de 2003, seus filho Júlio e neto Henrique visitaram várias vezes o túmulo e mandaram colocar uma placa de granito identificadora que reza “José Maria Rodrigues (Caluquembe) N.11-01-1905–HUÍLA F.26-09-1975-LUBANGO HOMENAGEM DA MULHER, FILHOS E NETOS” e simbolicamente depositaram um bilhete em papel com um beijinho de Irene. A sepultura está próxima a uma das entradas do cemitério e tem o nº 419 / 75, talhão 150 e rua 16.

À data do seu falecimento tinha 8 filhos, 29 netos e 2 bisnetos. Deles descendem hoje decerto muitos mais bisnetos, talvez dezenas, e alguns trinetos já, mas é difícil apurar o número exacto devido aos descendentes que moram em Angola, com os quais nunca se teve contacto pelo que não se sabe quantos filhos ou netos tiveram com excepção do filho Edmundo. Mas podemos avançar que relativamente aos 6 filhos dos dois casamentos de José Maria descendem actualmente 21 netos, 32 bisnetos e 5 trinetos, a maioria residente em Portugal, Brasil e Angola.


Por fim

Este apontamento memorial que apresentamos e oferecemos aos familiares, afilhados e amigos e alguns amigos dos descendentes, foram coligidos por seu filho Júlio mas com a grande e importante ajuda da sua filha Lucília e de seu irmão Jorge; deste o auxílio foi mesmo imprescindível pela memória de tantos factos, datas, testemunhos, melhoramento e revisão do texto. Contribuíram ainda com muitos detalhes sua viúva Irene e filhos Gino e Camilo, cunhado Daniel, bem como outros familiares. Agradecimentos à neta Ana Paula por ter executado a capa e a um amigo do Júlio (João Manuel) que ajudou a montar o trabalho e sobretudo aos responsáveis pelas oficinas gráficas da Câmara M. Sesimbra pelo grande apoio. É a homenagem que nos 100 anos do seu nascimento e quase 30 do seu falecimento lhe poderemos prestar, dando assim a conhecer algo do que ele foi aos que o conheceram mas sabiam pouco da sua vida, aos que já não se lembravam de pormenores, e aos que já pouco se recordam dele ou não o conheceram, ajudando dessa forma a perpetuar o nome dum admirável Homem, com “H” grande, com defeitos e com erros como todos os homens, com inimizades como todos os mortais, porém com incontáveis amigos e pessoas que muito o estimavam e consideravam e sobretudo com valores, virtudes, sensibilidade, personalidade forte, verticalidade e seriedade invulgares, assim como cultura, capacidade empreendedora e outras indiscutíveis; tudo isso fazendo dele uma referência que o trouxeram e trazem venerado por seus filhos, netos, irmãos, muitos familiares, afilhados, amigos e admiradores. a alma desse notável quão fascinante Homem está em paz junto de deus.


Portugal, Janeiro de 2005

Texto de Júlio Rodrigues

2 comentários:

  1. Foi tão bonito reler tudo isto,afinal, a história de uma família.Eu sou neto de Fernando de Freitas,tio da prima Irene Rodrigues,Marido de Conceição Quental de Freitas(já falecida aos 103 anos,minha querida avó).Quem no visita muito é a prima Ididin,filha de Isaura Lucas.

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  2. grande historia da minha terra

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